A importância de dizer a verdade às crianças

Associação Livre , 15/11/2015

O senso comum sabe que crianças não são ingênuas. Quantas vezes vejo adultos perto de crianças dizendo para tomar cuidado com o que estão dizendo pois elas podem entender. Mas a partir de quando uma criança entende o que está sendo dito?

Para alguns psicanalistas não é possível precisar a data, mas, independente disso, é fundamental que as palavras estejam “lá” na história do sujeito na hora que forem solicitadas. Para auxiliar na compreensão, e de maneira concreta, imagine um trem que na estreia do seu primeiro “passeio” dependerá de que anteriormente alguém tenha colocado os trilhos. Isso é o que em psicanálise chamamos de a posteriori, o trilho que num primeiro momento não tem sentido algum, mas que adquire, retroativamente, seu sentido ao ser colocado, o último elemento: o trem (o suposto dia do entendimento).

Para alguns psicanalistas não é possível precisar a data, mas, independente disso, é fundamental que as palavras estejam “lá” na história do sujeito na hora que forem solicitadas.

Por não sabermos quando a palavra ocupará seu lugar na cadeia de sentido da crianças, é fundamental que a deixemos lá. Do contrário, lá na frente, quando a criança precisar de seus trilhos, encontrará lacuna, o trauma, e, algumas vezes, o abismo da falta da própria história.

Para os que “já entendem”, a palavra possibilita elaborações. Freud descobriu assistindo ao seu neto num jogo (Fort-Da )  que a palavra servia na reparação do processo de afastamento real da mãe. Um jogo que consistia na presença e ausência do carretel de linha acompanhado de sua narrativa, os dizeres: fort e da (feito pela criança), as palavras nomeando uma experiência até então sem nome e dolorida. Sofrer com palavras é a única possibilidade de tornar o sofrimento suportável.

Na prática isso significa que TUDO deve ser dito para a criança, independentemente da idade, e da maneira que cada criança suporta e exige. Alguns pais em consulta terapêuticas comigo contam o hábito de pedir para alguém distrair o filho(a) para que possam sair despercebidos, “é melhor pra ele, assim não sofre me vendo sair” alguns dizem. Parece que nesses casos a dor da ruptura não está na criança. Enquanto os pais estão longe, afirmando pra si mesmo que essa é a melhor maneira, a criança que fica uma hora se dá conta da ausência deles, e sem saber onde estão, podem simplesmente viverem a morte de seus pais (em breve escreverei sobre a noção de conservação para isso ser melhor entendido).

Dizer tudo à criança, onde vão, que horas voltam, onde ela ficará durante esse momento, é uma forma de oferecer um cenário e elementos simbólicos para que possa alojar essa experiência de uma maneira suportável no seu psiquismo.

Uma vez dito isso é possível imaginar as N situações em que se revela a emergência da verdade entre adultos e crianças. Me vem à mente neste momento mais um tipo comum de negligência da verdade, negligência da palavra à criança: pais que brigam, ou estão em processo de separação, enfim, qualquer tipo de conteúdo conflitivo na vida do casal e que estes insistem em não nomear. A criança assiste à cena, e nela algo está estranho, algo não faz sentido, ela percebe que ali existe uma falha, esta falha é aquilo que não está nomeado, este “caroço sem nome” na estrutura familiar será caminho de construção de um sintoma na criança (enurese, pânico noturno, dificuldades escolares, etc), o sintoma é a tentativa saudável da criança descobrir qual a verdade oculta no discurso dos pais.

A criança assiste à cena, e nela algo está estranho, algo não faz sentido, ela percebe que ali existe uma falha, esta falha é aquilo que não está nomeado, este “caroço sem nome” na estrutura familiar será caminho de construção de um sintoma na criança (enurese, pânico noturno, dificuldades escolares, etc)

Este sintoma, no entanto, é um sintoma familiar, não um sintoma da criança, e muitas vezes curar a criança em análise, será revelar o “caroço-sem-nome” da família, e alguns pais nessa hora abandonam o processo, ou não veem progresso, ou ainda, dizem que as crianças pioraram, mas é claro, agora a criança está adquirindo seu próprio sintoma, seu próprio mundo de palavras, e não simplesmente sendo decifradora sintomática daquilo que eles (pais) não conseguem dizer.

Saulo Durso Ferreira
Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise
[email protected]
Academia Freudiana

VERDADE