As traduções de Freud

Associação Livre , 20/05/2015

“Temos a melancólica oportunidade de ver um escritor do porte de Freud falando como um personagem de filme dublado de televisão, cometendo erros crassos de português, usando uma linguagem retorcida e pedante, assumindo incoerências teóricas e às vezes fazendo afirmações inteiramente sem pé nem cabeça” palavras de Marilene Carone.

A obra de Freud passou a fazer parte do domínio público e, dessa forma, novas traduções aparecerão no mercado. A revista Cult fez uma belíssima matéria sobre as traduções que ocorrerão (e que já vem ocorrendo) no Brasil e também fora daqui.
Luiz Hanns se preocupa em recriar a atmosfera do alemão de Freud. Contratado pela Imago, ainda antes da obra cair em domínio público, o autor do “Dicionário comentado do alemão de Freud” traduziu três volumes (aqueles de capa marrom) para a editora com extremo rigor, talvez porque, dentre outras coisas, Hanns é psicanalista.
Paulo César de Souza, autor do livro “As palavras de Freud”, é o responsável pelas edições da editora Companhia das Letras, uma coleção feita em capa dura colorida, um volume azul, outro vermelho, e assim por diante. Diferentemente de Hanns, Paulo César não é psicanalista, muito pelo contrário, pois afirma não acreditar na eficácia da psicanálise. Seu interesse está no “escritor” Freud e não no “psicanalista” Freud, deixando sua tradução “mais próxima do texto fonte”.
Renato Zwick, faz parte da empreitada da editora L&PM, que não têm o objetivo de lançar “obras completas”, mas sim volumes independentes e em formato de “bolso”. Os textos mais visados desta coleção são àqueles considerados “sociológicos”, porém recentemente foi publicado o principal trabalho de Freud “A interpretação dos sonhos”, um trabalho que direciona a Psicanálise para os caminhos da Metapsicologia (vide o famoso capítulo sete).
Marilene Carone traduz para a editora Cosac Naify um livro luxuoso, indo na direção oposta da L&PM, que oferece um livro mais barato e de qualidade gráfica inferior. Até então, o único volume publicado é do trabalho “Luto e melancolia”, contendo não somente o texto de Freud, mas também ensaios de psicanalistas comentando o trabalho.
Pedro Heliodoro Tavares, contratado pela Editora Autêntica, se dedica à tradução do que se chamará “Obras incompletas de Sigmund Freud’. De acordo com Tavares, o tradutor deve “escutar o texto”.
Adam Phillips mais uma vez utiliza sua criatividade (basta ler os livros de Phillips, como “Louco para ser normal” ou, o que é, em minha opinião, o melhor livro para introduzir Winnicott e que se chama simplesmente “Winnicott”). Sua proposta é utilizar diversos tradutores e deixar a experiência de cada um deles auxiliar na tarefa: “eu queria pessoas que não estivessem tão enredadas pela psicanálise ou que estivessem enredadas por outras coisas. E que fossem pessoas habituadas a ler e interpretar textos, e não apenas estuda-los e usá-los como manuais de instrução”.
Para saber mais: Revista Cult n. 181.

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

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Academia Freudiana

Paulo Cesar