Assédio moral e o exercício da perversidade de cada um

Associação Livre , 24/04/2017

De acordo com a psicanálise, todo  ser humano, ao longo de seu processo de desenvolvimento psíquico passa por uma fase “perversa”. Em determinado momento de sua trajetória a criança apresenta características que, vistas em um adulto, se classificariam como perversas. Prazeres com por exemplo o sadismo e o masoquismo, que em uma criança se manifesta no regojizo de ver o amiguinho se punido em seu lugar, ou então levar uma surra dos pais enquanto solta uma gargalhada. Freud, em um importante texto de 1905 afirma: a neurose é o negativo da perversão, querendo dizer com isso que todos os adultos “normais” (neuróticos) tem pensamentos e lembranças perversas, mas que não as executam, enquanto os perversos realizam concretamente. No trajeto natural do desenvolvimento a criança após uma longa fase perversa abre mão desse lugar, concluindo seu “Complexo de Édipo”, para entrar a cultura, neurótica por excelência.

Os perversos são sedentos por transgressões da lei. Muito mais que causar o sofrimento do Outro, o que qualquer um pode fazê-lo, o que interessa para ele é mostrar como está acima da lei, para além do bem e do mal. Obviamente muitos se interessarão por lugares em que existam divisões hierárquicas, pois não há lugar melhor para exercer suas transgressões sem que ninguém possa questionar coisa alguma.

Muito mais que causar o sofrimento do Outro, o que qualquer um pode fazê-lo, o que interessa para ele é mostrar como está acima da lei, para além do bem e do mal.

Junto a estes poucos, mas irradiantes personagens de má fé, têm todos os outros, homens e mulheres constituídos em uma sociedade regida por leis, e que respeitam as relações de poder sem fazer transgressão alguma, ou se o fizerem, a culpa se encarregará de ser seu inferno. Na turma da má fé a culpa não tem vez. A culpa nestes indivíduo são expelidas e aplicadas no outro, estes sujeitos perversos, para aliviar sua angustia decorrente da possível culpa exercem seu sadismo no Outro, igual a uma criança que, irritada com os pais e nada podendo fazer vai ao quintal e fica esmagando formigas compulsivamente, ou judiando de algum animal, etc.

A coisa já seria complicada com essas características aqui descritas, porém existe uma ainda mais perigosa: a grande capacidade destes indivíduos de decifrar o que o Outro deseja, e substituir o desejo do Outro pelo seu próprio desejo. Um perverso tem a grande capacidade de imputar no Outro seu próprio desejo para então ter ali um cúmplice, e mais para frente poder dizer: mas você também quis. Do outro lado destes que visam o mal do outro estão pessoas na busca de reconhecimento, pessoas cada vez mais frágeis pela própria crueldade do sistema de trabalho que os “coisificam” esgarçando assim sua subjetividade; um animal que tem fome fica fiel àquele que lhe deu comida, ainda que este só vise o uso e abuso do mesmo.

Um perverso tem a grande capacidade de imputar no Outro seu próprio desejo para então ter ali um cúmplice, e mais para frente poder dizer: mas você também quis.

Talvez isso explique um fenômeno que muitas vezes ocorre em ambientes empresariais, o abuso de um lado e a conivência do outro, que pode ser uma subserviência sustentada por uma relação de poder perversa.

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