Como fica frágil uma pessoa quando está insegura de ser amada – O sentimento de inadequação

Associação Livre , 25/05/2015

Normalmente esta frase é encontrada no seu sentido inverso, ou melhor, este título é uma inversão da frase original “Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”. Freud nos ensinou isso, apesar de não ser nenhuma novidade para os amantes. Sentir-se amado, ter a certeza do amor possibilita com que vivamos com a coragem, não de ficar ileso às dores e machucados da vida, mas que, caso ocorra, tenhamos para onde voltar.

Só quem é sustentado no amor pode se perder e “ser”; diametralmente oposto ao ter que estar sempre preocupado e se manter num “fazer”, uma vigília constante. Como nos versos de Rabindranath Tagore: “Na praia do mar de mundos sem fim, crianças brincam”, versos estes que ilustram bem a sofisticada “capacidade de estar só na presença do outro” que Winnicott descreve. É neste ambiente, nestes mundos sem fim, nesta praia em que os pais “olham” pelas crianças que brincam, que elas podem se perder em seu brincar e assim se tornarem fortes, justamente por terem seu amor assegurado. Os que tiveram a sorte de crescer numa rua em que podia se perder nas brincadeiras enquanto alguns pais “tomavam conta” sabem do que falo.

Mas nem todos tiveram a mesma sorte, existem aqueles, que bem descreveu Coutinho Jorge, sentem o “desconforto pela vinda ao mundo, a recepção insatisfatória, a lancinante decepção com a vida e o desejo de morte a eles inerentes”. Gustav Mahler carrega esse sentimento em sua música, afirmando inclusive “Em toda parte um intruso, em nenhum lugar desejado”. Sugiro a leitura do poema abaixo ao som da Sinfonia n.5 de Mahler:

“Deixai entrar a Morte, a Iluminada
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?… Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!”

(Florbela Espanca)

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

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Academia Freudiana

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