A culpa é da mãe? A nomeação da primeira repetição

Associação Livre , 08/06/2018

O título desse texto chega aos meus ouvidos (acredito que de outros psicólogos e psicanalistas também) como afirmação e também como interrogação. Parece inevitável que alguém que tenha o mínimo de contato com Psicanálise chegue a este conclusão ou interrogação. Estudantes de psicologia, pessoas do senso comum ao ler ou ouvir sobre psicanálise, os pacientes, etc. Inclusive esta afirmação/interrogação é usada por aqueles que querem difamar a Psicanálise ou invalidá-la, argumentando que nela tudo se refere ao passado, à infância e à mãe. O pior é que boa parte deste desencontro de informação é construído por muito psicanalistas. 

Freud conseguiu identificar um fenómeno universal em que o filho (a) (x) em determinado momento (e crucial para seu desenvolvimento) se apaixonará por um dos cuidadores e rivalizará com o outro cuidador, classicamente: o menino se apaixonaria pela mãe e terá o pai como rival (e futuramente, se tudo der certo, como ideal). Freud tira este modelo do mito de Sófocles conhecido por Édipo. E aqui começam os erros, Freud utiliza o mito de Édipo para compreender um fenômeno, enxergá-lo, como diz Coutinho Jorge: “repertoriar o impossível”(p. 143). Édipo é um nome, e por trás do nome está “a coisa”, o impossível de cada um que insiste em não ser nomeado.

Aqui é necessário fazer uma distinção fundamental entre o impossível e o proibido.

O impossível já está presente na Psicanálise desde os seus primórdios, na principal obra de Freud, A interpretação dos sonhos, já encontra-se ali o termo “umbigo do sonho”, que seria algo como um ponto limite de interpretações possíveis, dali pra frente é desconhecido, indizível e claro, impossível. E o que determina o encontro com o “umbigo”? O ato do sujeito que se aventura em nomear, tal qual um pintor que em alguém momento terá que decidir por sua obra terminada, qual é a última pincelada? Antes que pareça “blá blá blá” psicanalítico, é importante lembrar que o  único a poder interpretar o sonho (e de qualquer outra manifestação do inconsciente) é o próprio sonhador, e sendo assim, um sonho pode ser interpretado enquanto o sonhador se engajar em seu processo de decifração. Cuidado aqui, pois trata-se de uma decifração dentro da realidade do próprio sonhador e não um significado universal das cifras. Esse é o impossível a que me refiro, o além do limite do dizível, e que se localiza em dois tempos, na pré-história e na pós-história do sujeito.

Temos aqui o sujeito humano entre dois impossíveis, o de seu passado e o de seu futuro. O passado a que me refiro é o da infância, aquele tempo que inclui a expressão “desde que eu me conheço por gente”, antes de se conhecer por gente o que era o sujeito? E será que o “momento” de “se conhecer por gente” de fato é lembrado? Freud, brilhantemente dirá que não! E por isso diz que não são memórias de infância que temos, mas sim memórias sobre a infância, pois o passado é lembrado não como ocorreu, mas como o sujeito gostaria que tivesse ocorrido. Na clínica, escutar sobre a infância é escutar a fantasia que o sujeito monta para si de seu passado. Não que tudo ali seja inventado, são fragmentos de lembranças concretas, histórias escutadas pelo sujeito sobre sua própria história, fotos, imagens, etc. Cacos e mais cacos de fatos, e entre eles desconhecimento, silêncios, “nadas” e que a pessoa fará uma colcha de retalhos criando sentidos e mais sentidos, e sendo afetado por crer na sua própria história. Duas coisas muito importantes aqui, a primeira, muitos psicanalistas tomam essa infância sobreposta pelos fatos, e acreditam que podem oferecer aquilo que faltou para o sujeito na sua história (que petulância, não?!), outro ponto importante, apesar de ter sido criada de maneira sobreposta por desejos, essa lembrança tem valor de verdade, pois ela possibilitou a construção do repertório frente a esse impossível.

Existe também o impossível do futuro, mas esse já falei no texto anterior sobre repetição do mesmo e do novo.

Retomando ao impossível do passado, Édipo conta a história de um proibido, no mito grego, Édipo mata seu pai, Laio e se casa com sua mãe, Jocasta. A consequência disso será uma maldição sobre Tebas (cidade onde tudo ocorre) e a punição de Édipo. Freud conseguiu chegar próximo ao impossível da estrutura pelo disfarce do proibido do mito de Édipo. Uma construção auxiliar para repertoriar o impossível da existência humana, a impossibilidade do saber todo, e como essa falta de saber leva o indivíduo a um querer saber constante e ao mesmo tempo um “não querer saber” desse processo sem fim (para entender melhor sugiro pesquisar sobre os termos “tiquê” e “autômaton” de Aristóteles). A criança que chega ao mundo vai precisar criar o mundo. Pedaço por pedaço ela criará seu reino (sua majestade o bebê), e em determinado momento olhará a sua volta e tudo aquilo que a vista alcançar será de sua jurisdição. O conhecimento é TODO. A isso chamamos de narcisismo, não só uma paixão por si mesmo, mas esse encantamento por tudo saber, tudo saber do outro, afinal o outro e eu somos uma coisa só. A figura que primeiro ocupará esse lugar de ilusão de extensão infinita será a mãe, e todos os personagens coadjuvantes desse reino, uma pausa para música:

Agora eu era o rei

Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país

Não é justamente essa a música que um filho canta para sua mãe nesse momento narcísico?

Mas o impossível é mais forte do que tudo, e com o tempo, se tudo der certo, essa extensão narcísica-infinita será rompida, naturalmente, como em uma abertura em espiral que a volta não se encontra com a ponta, e de desencontro em desencontro a espiral se alargará. Ao inevitável do encontro com o impossível um nome será utilizado para sobrepor a esse indizível, o nome-do-pai. 

De quem é a culpa dessa falta que todos nós sentimos? (se você pensou nesse momento: não sinto falta de nada… Tenho péssimas notícias pra você) De acordo com Freud e Lacan, da nossa própria constituição não-toda, dessa nossa estruturação como uma existência temporal entre dois “não-existir”/“não temporizar”. Olha só a trabalheira de raciocínio que começa a figurar… melhor para por aqui (uns já pensam nessa hora, “que brisa esse texto”). Melhor para nessa confusão psicanalítica e dizer: a culpa é da mãe!

 

Material produzido no último encontro do curso: Fundamentos da Psicanálise que acontece toda primeira segunda feira de cada mês as 19hs na Vila Mariana – SP.

Bibliografia:

Fundamentos da Psicanálise 1 – Marco Antônio Coutinho Jorge

A interpretação dos sonhos – S. Freud

Lembranças encobridoras – S. Freud

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