Entender demais pode ser o começo do fim

Associação Livre , 24/08/2016

Somos seres da palavra,  a palavra possibilita a existência das coisas. Se te pedem para “ir” e “pegar”, enquanto não é definido do que se trata, qual a palavra, a ação se mostra impossível. Pensamos com palavras, somos a partir das palavras, nos orientamos a partir das palavras.

Porém, a palavra sempre nos escapa, ou a coisa (aquilo que não tem nome e nunca terá) é irredutível a qualquer nome. Por maior imprecisão que seja esta “colagem” da palavra e da coisa, a melhor das possibilidades é se arriscar nela. Um bebê que chega ao mundo tem uma longa jornada na assimilação da linguagem, mais ainda, a linguagem o estruturará como sujeito.

A palavra virá para encaixar em sua ortopedia a “coisa”de cada um, uma mesma palavra, colagens em “coisas”diferentes. Por isso só posso ter certeza do que eu digo, mas não do que o outro escuta, não sei em qual “coisa” alheia esta palavra (em comum) afetará. Uma bela afirmação diz que “se duas pessoas concordam uma delas está mentindo”(não sei o autor da frase, até tempos atras achava que era de Freud).

Este pensamento inicial serve de ponto de partida de uma série de desdobramentos, mas um deles que gostaria de colocar aqui é na relação amorosa (e ainda assim uma das muitas leituras possíveis).

Na paixão, no começo do conhecimento, onde há tanto desconhecimento, os amantes se esforçam para tentar dizer ao outro o que sentem, o que pensam, e querem ouvir o mesmo do outro. Quão dolorido é querer dizer “como é grande o amor” e a palavra sempre escapar, ser insuficiente, e, motivados pela coragem de enfrentar a incerteza da linguagem, os amantes insistem, insistem.

Agora chegamos no ponto que eu gostaria de tratar, quando, aos poucos, os amantes vão desistindo de dizer, frases como: “ele(a)(x) outro tem obrigação de saber” ou “desisti de dizer ele(a)(x) não escuta”, ou ainda  também desistir de escutar “tá, tá, tá”. (Que fique claro que não excluo aqui o que há para além do verbal, os olhares, a sintonia, etc). Aqui falo de uma questão que vejo na clínica o tempo todo, pessoas que desistem de se arriscar no seu dizer e no seu escutar.

Nos primeiros parágrafos chamei a atenção para a insuficiência da linguagem e isso quando nos arriscamos e nos esforçamos a dizer, e escutar. Agora imagine quando o esforço acaba e bate aquela famosa “preguiça” de se fazer entender ou de entender o outro. É impressionante como alguns casais preferem romper a relação a ter que falar sobre ela, falar de si, falar do outro. A coisa vence a palavra. A coisa é um abismo sem forma, que só faz com que cada um queira correr para longe dali.

Na crise do amor, do relacionamento, a via principal, ou pelo menos, a via de grande chance de resgatar algo, é retomar a coragem de “falar a relação”, por em palavras tanto subtendidos, delírio pessoal de cada um.

Saulo Durso Ferreira

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