A escuta surda de um psicólogo que não faz terapia

Associação Livre , 15/02/2018

O psicólogo é retratado muitas vezes como aquele que oferece valiosos conselhos, porém o que realmente o diferencia dos outros profissionais e especifica essa profissão é a capacidade de escuta refinada e técnica. Ao longo de cinco anos de formação o graduando em psicologia desenvolve a capacidade de escutar em diversos níveis e por diversas teorias. Ao final da faculdade deverá estar habilitado a escutar aquilo que mais ninguém consegue ouvir.

Em tese bastaria fazer faculdade de psicologia e o sujeito estaria pronto para iniciar seu trabalho de escuta, mas tem um detalhe fundamental neste processo de formação, não bastam os estudos e a dedicação, ele próprio tem que passar pela experiência de ser escutado por algum outro. Se você é estudante de psicologia ou psicólogo e neste trecho pensou “eu não faço psicoterapia pois não tenho problema nenhum” este texto é principalmente para você.

Como supervisor clínico de psicólogos e estudantes de psicologia na faculdade, posso relatar como é frequente o  fenômeno, principalmente com aqueles que não fazem psicoterapia, da “escuta surda”. Existem pelo menos dois tipos de surdes que pretendo descrever, a que “tira” e a que “põe”:

A surdez que tira: neste tipo o sujeito, estudante de psicologia ou psicólogo, contorna determinados conteúdos sem atingí-los, como se fosse um caroço a ser contornado. Esse caroço nada mais é do que algo que de alguma forma estrutura seu sintoma pessoal. Falei de um elemento que estrutura pois nem sempre a relação é tão clara entre sintoma do profissional e sintoma do cliente, muitas vezes trata-se de um elemento do sintoma na sua montagem condensada. Como exemplo simples, uma pessoa que eu supervisionava não conseguia escutar sobre a configuração familiar de seu cliente pois seu caroço pessoal (sintoma) arremetia a uma dúvida sobre “quem era seu pai”, apesar do pai estar presente desde seu nascimento, tinha um boato familiar que dizia que seu pai era outro. E como todo tabu familiar, todo mundo sabe, mas não pode saber que sabe. Ou então, numa surdez mais “um pra um” de sintomas psicoterapeuta-cliente, uma profissional que nunca trazia em supervisão a questão da sexualidade de sua cliente, e quando questionada sobre isso apresentava sinais claros de incômodo e sua fala acelerava visivelmente (ou gaguejava de “tanta” rapidez” para falar”) ao mencionar as palavras: sexo, prazer, relação sexual, etc.

A surdez que “põe”: uma boa frase para ilustrar brevemente esta surdes é: “pra quem trabalha com martelo, tudo é prego”. Ou seja, este tipo de surdez do profissional coloca seu sintoma em tudo o que escuta, todo tipo de fala do cliente será modificada pelo acréscimo do sintoma do psicólogo. Quantas vezes em supervisão, e como os atos falhos ajudam a revelar isso, preciso perguntar para o psicoterapeuta, “por acaso você esta atendendo você?”.

Imagine agora o efeito danoso que é uma pessoa passar por um processo psicológico com um profissional surdo que “tira” ou “põe”. Imagine anos de psicoterapia com alguém assim, quais consequências teríamos? Talvez um profissional produzindo cópias sintomáticas suas. Alguns profissionais falam que o psicólogo é um artista e o cliente uma obra de arte… Frase boa para postar no Facebook, na prática me aparenta mais como uma das formas da surdez, como bem disse Winnicott: “e quem quer ser obra de arte de alguém?” (Natureza Humana)

É importante o questionamento de quais momentos é necessária a psicoterapia na vida de um psicólogo, sem dúvida na graduação e de preferencia que se estenda até sua atuação. Mas não podemos esquecer que, mesmo depois de sua análise “finalizada” é preciso de tempos em tempos ser escutado por alguém, um ajuste técnico, de manejo e de escuta.