Eu te idealizo, eu me horrorizo, eu te colonizo, eu te abandono

Associação Livre , 30/05/2018

Não precisa ser psicanalista, ou estar em um processo psicanalítico, para perceber que nossa vida se configura em ciclos de repetição. A vida vai caminhando “naturalmente” e então nos vemos mais uma vez num mesmo questionamento no trabalho, no relacionamento, mais uma vez num descontrole financeiro, numa briga com um amigo. A história se repete. 

A repetição parece inevitável no destino de cada um, e cada um parece não querer saber daquilo que se repete na própria história. Não foi à toa que Freud chamou isso que se repete de “isso”. Mal traduzido por “id”. Ao traduzir para “id” perde-se o que dá lastro ao fenômeno linguístico que o tempo todo aparece na fala de todos nós’ “tenho me do que aconteça isso”; “estou sentindo isso de novo”; “o que faço com isso”, etc, etc e “isso”. Dai então o sujeito é interrogado, isso o que? Tenta se explicar, mas mesmo com todas as palavras utilizadas na explicação, ao final, ele estará ali: ISSO!

O que será, que será?

Também não precisa ser psicanalista para chegar na conclusão que “dentre os demônio prefiro ficar com aquele que já conheço”. Frase de R. Fairbairn, psicanalista, mas conclusão que pode ser alcançada por qualquer um que tenha que “escolher” entre sofrer e sofrer (pois assim parece o modo neurótico de ter opções na vida). Uma frase que ilustra bem esse movimento está no Talmude: “Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos”. Por mais que o outro se mostre em toda sua multiplicidade a apreensão que tenho do outro é do tamanho da minha experiência subjetiva. Reduzimos o “isso” ao conhecido.

Como Cazuza já cantava: “adoramos amores inventados”, invento no sentido de que inicialmente, frente ao outro desconhecido não vejo o “isso” dele, mas vejo a mim mesmo. Por essas e outras que a paixão é esse encantamento narcísico, do sujeito por ele mesmo. O que vê um apaixonado no outro? Seu reflexo. E quanto mais simétrico a mim, mais digno do meu amor. Quem nunca, estando apaixonado, se empolga cada vez mais com o outro a medida que verifica que os gostos e hábitos são semelhantes. “Ele(a)(x) é perfeito(a)(x), somos muito iguais.

Mas o “isso” é inapreensível, e romperá com todas as suas forças essa camada narcísica e aparece como ranhuras no espelho, o sujeito não conseguirá ver mais a si mesmo no outro, alguma coisa escapa:  por que está acontecendo “isso”? O que é “isso”. Como você se transformou n”isso”?

Assustado com o desconhecido o sujeito apressa-se em colonizar o outro, suprimir o indizível, do outro, que na verdade é o do próprio sujeito, nomeando com os velhos nomes já conhecido e gastos. A cada casa nova que o sujeito se muda leva os mesmos móveis, pinta com a mesma tinta, deixa tudo igualzinho, igualzinho, como sempre foi…

Não demorará a mais uma vez enjoar do local e querer se mudar, novos ares, novas pessoas, nova arquitetura. Mas não demorará para que o “isso” se transforme em “mesmo” mais uma vez. Em psicanálise chamamos isso de transferência, e clinicamente esse fenômeno figura como uma resistência, mais ou menos como na sequência a seguir: 1- sujeito vai para análise e projeta no analista seus ideais, e vai procurar os detalhes que confirmem sua ilusão, um sorriso, um gesto, um livro na estante, alguma coisa para causar o engano. 2- O analista (um bom analista) não se identificará com esse lugar projetado pelo analisando, escapará como um “isso”, levando o paciente a produzir angústia. 3- A angústia não engana e faz o sujeito se movimentar, rumo ao destino incerto, mas… Lembrem-se da frase de , dos demônios ele prefere ficar com o conhecido, e então tentará colonizar a análise com as figuras de seu passado, da sua repetição do mesmo. Isso até o momento que ele se deparará com o momento da resolução do impasse (dos limites imaginários para caminhar ao destino Real);  nessa hora, da mesma forma que o “amante”, sentirá que a análise não está mais funcionando, ou que não tem nada a dizer, ou que esta repetitiva, etc. Levando assim a desistência.

Temos assim a distinção clara da repetição do mesmo – os fantasmas da transferência – e a repetição do novo – o indizível. E para caminhar no sentido do indizível só mesmo a psicanálise, essa práxis que se arrisca no impossível de levar o sujeito ao que não tem sentido, e ainda cobrar por isso.

(continua…)

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