Filho, eu não sou seu amigo

Associação Livre , 23/10/2017

A cena é corriqueira no consultório: Os pais chegam trazendo queixas com relação aos filhos adolescentes e insistem em dizer que são amigos, na verdade, “grandes amigos” de seus filhos. E, com essa prerrogativa, não conseguem entender o que se passa, o porquê do filho não se “abrir” com eles ou simplesmente não compreendem como podem estar passando por algum problema que eles, seus pais-amigos, não conseguem resolver. Filhos não são amigos dos pais porque pais não podem ser amigos de seus filhos.

Filhos não são amigos dos pais porque pais não podem ser amigos de seus filhos.

Mas, calma. Isso não quer dizer que, por serem pais, vocês não possam ser parceiros de seus filhos. Escutar, ajudar, conversar, enfim, é parte do ofício. Vocês podem ser grandes parceiros desta grande jornada de suas vidas. É possível, inclusive, dividir certas angústias, problemas ou dificuldades. O que não acontece é vocês serem amigos, pois a “função” de pai e mãe não tem a mesma “função” de um amigo. São lugares subjetivos e posições socioculturais diferentes e essas diferenças têm suas razões. Não se trata de qualquer problema a ser resolvido. Antes disso, são formas de relações diferentes, cada uma delas faz parte do desenvolvimento dos filhos e essa separação de papeis contribui para uma boa relação entre vocês.

Não há mal nenhum reconhecer que não se é amigo dos filhos, ao contrário, é importante constatar que não é possível ocupar estes dois lugares ao mesmo tempo. É de um lugar diferente que os pais podem efetivamente contribuir para o crescimento e ajudar nas dificuldades encontradas pelos filhos ao longo da vida. Mas qual seria este “lugar”? Este lugar corresponde ao lugar de pais mesmo. Mais tarde, é provável que eles exerçam essa função com relação aos seus próprios filhos e com vocês também, quando estiverem velhinhos, e será preciso que eles tenham aprendido com a experiência.

Uma mãe (“uma mãe” que pode ser muitas mães, pais ou avós) chegou ao meu consultório, queixando-se dos relacionamentos que a filha tinha com garotos. Tinha medo de que ela estivesse iniciando sua vida sexual sem estar namorando alguém que ela, sua amiga-mãe, conhecesse e queria que a filha se desse mais “valor”. A filha adolescente, por outro lado, dizia que sua mãe a repreendia quando falava sobre os garotos com quem saía (eram “casos”, “rolos”, “ficantes”, categorias daqueles relacionamentos em que não se oficializa um “namoro” propriamente dito). A mãe discordava, já que sempre perguntava tudo para a filha, tendo a certeza de que, ao dizer que era sua amiga, ela “deveria” então contar-lhe “tudo”.

Pronto. Talvez não seja preciso ser uma psicanalista para “sacar” que por ali as coisas não iam muito bem, caminhavam mal ou mal andavam. Essa cena é apenas uma dentre tantas outras variantes de uma mesma condição. Outro tipo bastante comum é quando os filhos se queixam de que seus pais não são seus amigos. Durante muito tempo, os pais tinham por hábito, dado pela cultura, uma relação com os filhos mais austera, cheia de restrições e permeada por temores. O mesmo acontecia na educação escolar, isto é, na época da palmatória ninguém dizia que era “amigo” dos seus filhos ou alunos. Os tempos mudaram – a meu ver para melhor e, portanto, não há nada de conservador nisso – e hoje a “onda” é dizer que se é amigo dos filhos.

Por mais que nossa cultura tenha se transformado, com menos restrições e temores no interior dessas relações, alguns problemas permanecem. A forma pode ter mudado, mas seu conteúdo permanece inalterado. Hoje, por exemplo, a iniciação sexual ocorre mais cedo e, por volta dos 13 ou 14 anos idade, muitos adolescentes já tiveram suas primeiras relações sexuais. Retomando aquela cena cotidiana de consultório, a adolescente de 15 anos transa com alguns de seus “casos”. Mas, o que chama atenção é que o cerne do problema dessa garota não está em contar ou não contar para a mãe que transou com alguém, mas em sentir-se amada. Veja só, como dizia a música de Luiz Gonzaga: “Ela só quer, só pensa em namorar”. Os tempos mudaram, mas o que faz essa garota sofrer é não se sentir amada por seus parceiros. Ela também quer se sentir “valorizada” pelos garotos com quem se relaciona. A forma pode ter mudado, mas o conteúdo de sofrimento permanece. Em nosso exemplo, sofre-se por amor, ou melhor, por não se ter a certeza de que está sendo amado por alguém.

São intimidades recheadas de sofrimentos que demandam elaboração, demandam uma escuta, mas que nem sempre os pais podem acolher. Pois os pais também têm suas próprias questões, seus desejos com relação aos filhos e nem sempre é fácil acolher os conflitos dos filhos quando ocorrem misturas complexas de sentimentos. Ainda mais quando este sofrimento mal consegue ser dito, fazendo aparecer sintomas que disfarçam o problema, mesmo que com isso se criem novos problemas. São fenômenos que costumam aparecer na adolescência: o isolamento social ou a busca por grupos de identificação e ídolos teens, alterações bruscas de humor, ambivalência com relação ao corpo e a própria identidade, comportamentos auto ou hetero-agressivos, compulsões alimentares (anorexia nervosa, bulimia e obesidade), envolvimento em situações de risco (com relação a sexo, drogas e rock and roll), automutilações (cutting, tricotilomania e até suicídio).

São fenômenos que costumam aparecer na adolescência: o isolamento social ou a busca por grupos de identificação e ídolos teens, alterações bruscas de humor, ambivalência com relação ao corpo e a própria identidade, comportamentos auto ou hetero-agressivos, compulsões alimentares (anorexia nervosa, bulimia e obesidade), envolvimento em situações de risco (com relação a sexo, drogas e rock and roll), automutilações (cutting, tricotilomania e até suicídio).

Muitos desses sintomas estão relacionados com o processo do “adolescer”, o que significa “aptidão” para “crescer” ou “adoecer” (Aberastury & Knobel, 1989)2. Frente a essas transformações, o sujeito adolescente é convidado a uma série de elaborações. O luto, conforme nos ensinou Freud (1917/1998)3, é um processo que envolve um trabalho psíquico em torno de algo que foi trazido pela realidade e traduzido subjetivamente como uma perda. A adolescência se caracteriza por um processo que envolve uma série de lutos da infância e a existência de novas experiências que são fundamentais ao preparar o jovem para a vida adulta, mas que, muitas vezes, podem ser mais gravosos, ensejando preocupação e cuidados específicos

Faz parte da adolescência comportamentos e sentimentos de ambivalência e oscilação entre a vida infantil e adulta – são crianças para algumas coisas e adultas para outras -, é uma fase permeada por conflitos internos (de busca pela emancipação e, ao mesmo tempo, dependência) e externos (com relação ao ambiente familiar e social), tornando a função de pais ainda mais complicada. É um momento em que se constata que o mundo ideal não existe, e que o mundo dos adultos, inicialmente representado pelas figuras parentais, mostra-se “fracassado” por não representar mais um mundo ideal (Gutierra, 2003)4.

A adolescência é um tempo propício para a seguinte pergunta: “O que você vai fazer com isso que fizeram com você?”. Balizar o próprio desejo, tornar-se responsável subjetivamente tendo em vista a sua própria singularidade, mesmo que este desejo ainda esteja pautado por aquela canção de Elis Regina que diz: “Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

É bom reconhecer a própria insuficiência dos pais em lidar com certas situações, estar aberto às experiências desta “normal anormalidade” que é a vida de um adolescente e, ao mesmo tempo, estar atento a situações e momentos que demandam maiores cuidados. Se há algo, portanto, que podemos recomendar, é que sejam pais nessas horas e não amigos, pois os amigos não cumprem a mesma função de vocês. Deixem os amigos com a função de amigos.

Os amigos vivem conflitos que lhes são próximos, estão vivenciando situações semelhantes e têm suas próprias formas de compartilhar, conduzir e solucionar problemas. Os pais precisam elaborar suas próprias questões e, por serem pais, não poderão ter os filhos como pacientes ou analisandos (àqueles que recorrem a uma psicanálise). O que não quer dizer, precisamos enfatizar, que não sejam grandes ouvintes das falas e que não devam estar atentos aos silêncios de seus filhos. Ao contrário, o que resta aos pais nesta difícil e, ao mesmo tempo, possivelmente prazerosa experiência, é o diálogo. Descobrirem-se grandes ouvintes e promotores de diálogos é o que há de mais importante nessa função. Trata-se de um “saber fazer” com limites de horários, promover acordos, oferecer conselhos, dar abertura, enfim, ensejar a difícil tarefa de oferecer liberdade com responsabilidade.

Para isso, é importante aprender com essa função que vocês e a vida lhes trouxeram. A “função de pais” não é exatamente a mesma coisa que os exemplos dos pais de Beltrano ou Sicrano. É como vocês, que são pais, de maneira singular, vivem essa experiência. Não há modelos infalíveis a seguir ou um modelo único que possa ser tomado como ideal. Cabe a vocês trilhar essa via e descobrirem, junto com seus filhos, por quais caminhos seguir. Neste caminho, o que vale são as experiências, incluindo as tentativas e os incontáveis erros dados por equívocos ou imprevistos. E quando por acaso ouvirem que não são amigos de seus filhos ou acharem que seus filhos não os têm por amigos, não é preciso qualquer desculpa. Que bom que vocês não são amigos.

Adriana Marino: Psicanalista. Graduada em Psicologia pela Universidade São Marcos e em Filosofia pela Universidade de São Paulo (FFLCH). Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), mestre e doutoranda em Psicologia pelo Instituto de Psicologia (IPUSP). Membro de Fórum da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (EPFCL). Atua em consultório clínico, é colaboradora do Psicanalistas pela Democracia e membro da Clínica Aberta de Psicanálise (Praça Roosevelt). Docente na Escola Municipal de Saúde (Secretaria Municipal de Saúde -SP) e nas Faculdades Integradas de Guarulhos (FG). Contato: [email protected]