Hegel e Raul Seixas como elementos de uma “cura” psicanalítica

Associação Livre , 24/07/2017

Pessoas de alto rendimento! É isso que leio e vejo por toda parte, o convite constante para o alto rendimento no trabalho, no amor, na família, etc. Em algumas livrarias, livros de auto ajuda se misturam com livros de psicanálise, apesar de misturados em prateleiras, os objetivos são diametralmente opostos.

Recebo candidatos a análise constantemente e verifico como o discurso da auto ajuda esta embutido na busca leiga, “quero me conhecer melhor”, “desenvolver meus potenciais”, “aumentar meu rendimento”, “ser melhor isso… aquilo”. O narcisismo está na base constitutiva de qualquer sujeito, mas está paixão por si mesmo acarreta exigências de performances cada vez mais audaciosas e impossíveis de serem alcançadas. Aqui está o ponto em que uma análise deve atuar, desatar cada nó dessa exigência apaixonada.

O narcisismo está na base constitutiva de qualquer sujeito, mas está paixão por si mesmo acarreta exigências de performances cada vez mais audaciosas e impossíveis de serem alcançadas.

Mas apaixonada pelo que?

Por uma suposta imagem, por um ideal, que obviamente é enganoso, porém o sujeito faz o que for necessário para sustentar essa imagem (Lacan chamou isso de um nome um tanto quanto assustador: a quadratura inesgotável dos arrolamentos do eu). E falta o detalhe principal, tudo isso é montado frente a um suposto outro que quer algo desse sujeito

Aqui está uma das grandes diferenças do psicanalista em relação a outras áreas do mundo psi, um psicanalista não quer nada do analisando, e esse “não querer” com o tempo libera o sujeito a revelar suas precariedades, um alívio para ele. O analista se torna aquele que o analisando poderá falar seu “pior”, do sua vida nada heróica (que por mais que a pessoa negue, sabemos que lá no fundo, na sua fantasia mais intima, existe um herói, uma heroína, pelo bem, pelo mal).
Hegel pode ajudar a deixar mais claro aqui:

Afinal, por trás das grandes ações o criado de quarto vê os interesses de alcova, as paixões privadas que as animam (…) não demonstrou, de Julio César, Alexandre, o grande, que esses homens eram animados por paixões egoístas e, por isso, eram homens imorais?” (Safatle, p. 116)

O analista é o criado de quarto, e para ele não é necessário a tentativa de sustentar o lugar de herói, uma das libertações que a psicanálise proporciona é justamente o que Raul Seixas diz, “eu não sou besta pra tirar onda de herói (…) entrar pra história é com vocês.

Lacan, J, Escritos

Safatle, V., Grande Hotel Abismo

Saulo Durso Ferreira

Psicanalista, Mestre em Psicologia pela PUCCAMP, Professor e supervisor de Psicanálise da FMU

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