Homens fazem sexo, mulheres fazem amor

Associação Livre , 27/04/2015

Desde sempre homens e mulheres sabem: são diferentes e não se entendem, e, desde sempre, insistem em se entender, se completar, etc, etc. Aristófanes bem que tentou com seu mito do ser Andrógino (talvez tenha feito aquilo que está marcado nas catacumbas do inconsciente humano) o mito da completude a partir da complementariedade dos sexos.
A psicanálise nesse sentido não é tão ingênua, ela sabe, Freud sabia, homens são de um planeta e as mulheres de outro, bem distantes. Tanto é verdade que foi essa a grande questão deixada em aberto por ele. “Freud explica” mas isso ele não explicou: o que quer uma mulher?
Freud era devotado no amor que sentia por sua esposa, e reconhece em diversos momentos da sua história a importância dela em tudo aquilo que construiu na sua Psicanálise. Os psicanalistas e as mulheres, tão sabidos, tão vulneráveis, Ferenczi, Jung, Winnicott (e sua famosa construção sobre: o medo à mulher), e tantos outros.
Freud mesmo assim não se acovardou e se arriscou a falar do amor, e do amor entre homens e mulheres, e até ousou responder ao enigma do feminino. Em seu belíssimo texto “Para introduzir o narcisismo”, em determinado momento, fala das mulheres na puberdade, como se elas retornassem a um estado narcísico e passassem a amar a sua própria imagem. É isso que querem: SEREM AMADAS, SEREM OLHADAS, SEREM DESEJADAS. Mas como se faz isso? Ai deixamos os homens enlouquecerem tentando.
Lacan foi mais drástico e categoricamente disse: “Não há relação sexual” e, também que, “A mulher não existe”. Isso rendeu muita confusão, Lacan foi até mesmo parado por uma senhora na rua que o criticou por ter dito isso. “Apareça lá minha senhora, apareça lá que explicarei!”. Lacan quis dizer (ou não) que não existe a complementaridade dos sexos e na segunda afirmação que não existe algo que possa definir uma mulher, possibilitando assim circunscreve-la em alguma categoria. E tudo isso por quê? Culpa do Falo, o famoso falo de Freud, que não, não é o pênis. Isso não é assunto para agora, mas pegarei emprestado o Falo de Freud (soou estranho isso) para tentar contribuir um pouco com a confusão da relação homem mulher.
Tudo começa com uma diferença anatômica (mas que não se reduz à anatomia), em determinado momento da vida, meninos e meninas só tem uma única diferença, uns possuem pênis, outros(as) não. Pronto, aqui começam os primeiros questionamentos: por que eu tenho e você não? Por que eu não tenho e você tem?Perderei o meu? Ganharei um? Etc, etc. Para alguns Freud exagerou aqui, mas quem já viu crianças nessas idades sabe que uma hora essa questão começa a ser o centro da vida dos pequenos. Existe uma longa e riquíssima explicação sobre o Édipo do menino e o da menina, mas deixarei para publicar futuramente (na categoria Teoria e Clínica do site).
Adiantarei as coisas, o menino acredita possuir o falo por ter o pênis, a menina o é por não ter pênis. Isso gera um desdobramento dialético no processo de constituição psicossexual de cada um. O homem por ter pênis, acreditar ter o falo,  e assim tem medo de perder, a mulher por saber que não o possui nada teme, apenas sofre. Temos assim, um ser de angústia e um ser de sofrimento; um ser de medo (homens) e um ser de coragem (mulheres). Tudo na vida do homem se resumo na potência fálica: exibição e medo de perder, as mulheres, por outro lado, até podem buscar isso, mas não se limitam a isso. Acredito que já deu para perceber que não são seres opostos, mas seres que se configuram de maneira diferente em relação ao Falo, isso gera uma quadratura inesgotável da superposição dos desejos de homens e mulheres.
As mulheres deixam os homens acharem que mandam, que estão no controle, se divertem com eles exibindo seus “falos”, mas quando esse falha o homem se reduz a nada. Um homem que broxa, em geral (por que sei que muitos lerão isso dizendo: eeeeeeu não), fica arrasado, e a coisa pode piorar se a mulher disser: “não tem importância amor, eu gosto de ficar juntinho também”. “Como assim?” pensa o homem, “isso nunca me aconteceu antes”, afirma assustado e perdido. Pronto, o homem entra em parafuso! Aqui a mulher apresentou o terreno que vai para além da compreensão de qualquer homem, para além do falo. O homem têm o temor da perda, o falo é seu limite, já a mulher pode pular essa cerca e caminhar pelo lado de lá. Chamamos (nós homens) essa lado de lá de “coisas de mulheres”. Elas vão ao banheiro todas juntas, elas se trocam umas com as outras, elas riem trocando pensamentos sem abrir a boca, até mesmo a “vozinha” quando perde o “vozinho” não necessariamente arruma outro, ela tem a possibilidade de ser “avó” e isso bastar, agora o contrário, ou o “vozinho” morre, ou arruma uma mais nova, e dá-lhe o “azulzinho”.
Chico Buarque (vídeo em anexo) fala sobre isso de maneira única, primeiro reconhece que não entende as mulheres, aqui pegamos Lacan de novo, nada as define; “A mulher não existe”, cada mulher é um universo, uma nova mulher, e aí de você se quiser reduzi-la a outras, elas não suportam sequer numa festa encontrar outra com o mesmo vestido, é relação de ódio. Homens, numa festa, com a mesma roupa, se cumprimentam e ainda brincam “onde vamos cantar, tava em promoção, etc). Chico diz mais ou menos assim: “algo feito por um amigo meu seria imperdoável, mas se a mesma coisa fosse feita por uma mulher, eu perdoaria, afinal, são coisas de mulher”.

Assim, para concluir, homens trepam, mulheres fazem amor. Homem faz sexo, pá-pum, mulher quer amor, quer história, quer contexto. Veja que não estou dizendo que se resuma a isso, mas estes são os limites de cada lado.  Dessa forma fica fácil concordar com a frase:
“Mulheres podem fingir um orgasmo mas os homens conseguem fingir uma relação inteira”; ela fingi oferecendo aquilo que ele precisa, “uau você é bom”, ele tenta oferecer um relacionamento, mas nessa se perde, como sempre.

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

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Academia Freudiana

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