Loucura é não encontrar alguém que nos tolere.

Associação Livre , 18/05/2016

A palavra “louco” ou “loucura” está o tempo todo presente nos diálogos do cotidiano de muitas pessoas. Loucura no sentido de impulsividade, loucura no sentido de ignorância, loucura nos exageros, etc. Nós, da área “psi”, sempre que nos revelamos “psi” costumamos escutar: “ah você cuida de loucos”.

Ao escutar isso ratifico: “isso mesmo, cuido de loucos”.

Uma criança passa por um fase difícil em que é tirado da cama dos pais, a enurese aparece, a ameaça do “monstro” aparece em seus desenhos… Um adolescente relata o afastamento dos colegas sem motivo algum… A senhora não sabe o que fazer da vida agora que criou os filhos e eles saíram de casa… O jovem oscila com crises de ciúmes da namorada que não revela a ninguém para não parecer imaturo… O funcionário começa a decair na sua produtividade desde que seu filho passou a ir mal na escola, e a instituição o responsabiliza por isso… Ela está confusa com seu desejo sexual que não se encaixa nos padrões familiares, etc.

Loucuras e mais loucuras. Histórias assim encontramos nos consultórios, dentre outras. O que pede uma pessoa ao buscar a clínica psicanalítica? Ao meu ver, um “contexto”, uma “moldura” para o seu sofrimento, ou sua falta de sentido, seja para dar contorno ao fato de ser “arrancado” do quarto dos pais, seja a confusão que a sexualidade causa no Self. Por isso, tenho como máxima da minha clínica o conceito de J. Rickman: “Loucura é não encontrar alguém que nos tolere” (Winnicott, 1996). As pessoas se sentem loucas justamente quando ninguém as tolera; o sujeito pode ser um “louco” (no sentido que o senso comum utiliza), mas se alguém o tolera a experiência não será de loucura.

“Loucura é não encontrar alguém que nos tolere”

Sendo assim, quem procura a clínica, procura alguém que o tolere, esta é a primeira coisa a ser feita na clínica, antes de qualquer enquadre, antes de qualquer opinião crítica, primeiramente tolerar. Mesmo o processo caminhando, para além das sessões iniciais, a tolerância ao ser do outro, é condição de saúde. Mais de uma vez escutei algo do tipo: “devo ser louco” ao que respondi, “este risco não está descartado, mas ainda assim prossiga, quero ouvi-lo”, e imediatamente, a loucura perde sua força de ex-sistencia (algo que existe fora do sujeito mas que o assombra forçando existência), e pode então ser experienciada e integrada na área de onipotência do sujeito.

Aqui está o sentido de funcionar como “ego auxiliar” de seu cliente. Não é respondendo ou fazendo por ele, mas estar ali, inteiro, sobrevivendo, sem retaliação ao que quer que seja apresentado. Não com um sorriso e serenidade de que tudo sempre está bem, mas oferecendo como resposta o que é causado no Outro, comunicando  assim, indiretamente, que a loucura dele se apresenta pra mim, sobre mim tem efeito, mas ainda assim sobrevivo a ela. Do desconfortável ao impensável, o que se busca é um lugar em que estas coisas possam existir.

Saulo Durso Ferreira

Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise

Winnicott, D.W. – O ambiente e os processos de maturação,  Artmed, 1996

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