A necessidade de estar doente, entre a culpa e o sofrimento.

Associação Livre , 26/03/2017

Existe um fenômeno na clínica psicanalítica em que o analisando, em determinado momento de seu processo de “cura”, parece não querer mais progredir rumo à saúde, chegando até mesmo a caminhar para o lado oposto, e buscar aquilo que Freud denominou “necessidade de estar doente”. Esta necessidade  configura-se como uma das resistências (ao lado da necessidade de sofrer) da segunda parte do processo de “cura” psicanalítica.

Freud, a partir de 1923, estabelece a divisão do psiquismo em três porções: isso, eu e supereu (também conhecido como id, ego e superego). O isso é a instância mais antiga e morada das pulsões mais primitivas que visam apenas sua satisfação. O eu se desenvolve a partir do isso que entra em contato com o mundo externo, assim tem duas tarefas logo de cara, lidar com estímulos que veem do lado do isso (as pulsões) e com os estímulos advindos da mundo externo. Aquilo que o eu não consegue manter nos seus domínios por conta de um desprazer causado a ele, será “empurrado” ao isso, originando o material recalcado.

Tempos depois, uma parte do eu se modificará originando uma nova instância, denominada supereu. Esta instância  é considerada o herdeiro do complexo de Édipo, internalizando assim as figuras parentais presentes no clímax e resolução do conflito, funcionando assim como a agência moral, como se dissesse internamente e constantemente ao sujeito: “Tu não deves ter prazer algum”.

O adoecimento aconteceria quando estas forças do isso e do supereu fragilizam o eu ao ponto deste perder cada vez mais contato com a realidade. Sendo assim, a primeira tarefa do analista consiste em se aliar ao eu fragilizado do analisando, amparando-se sempre na realidade. Esta aliança entre o eu frágil e o analista se torna possível pelo fenômeno da transferência, o profissional deixa de ser apenas um “médico” ali na frente e passa a ser a reencarnação de figuras do passado.

Uma resistência aparecerá quando o eu, agora mais fortalecido, deverá enfrentar o material recalcado, para que este material seja elaborado ou recalcado de vez. Mas o eu com “medo” de mais uma experiência de desprazer reluta ao enfrentamento, e passará a resistir aos esforços do analista, que usará agora a ajuda do inconsciente e sua tendência natural e constante de querer levar seu material para a consciência.

Finalmente chegamos a segunda parte do trabalho psicanalítico, e que figurara como uma nova resistência, agora na relação do eu com o supereu, aparecendo assim um fenômeno constantemente verificado na clínica (e mesmo no dia a dia comum) da necessidade que o sujeito têm de permanecer doente. Quando a saúde aparece rumo à cura, o supereu começa a atacar o eu, e qualquer sensação de prazer traz consigo o sentimento de culpa, e , para se livrar desta, o analisando procurará maneiras de retomar o seu sofrimento. Como dito por Freud: “a neurose é uma miséria pessoal”. Sim, parece que o neurótico é este que deve viver miseravelmente no sofrimento ou na culpa. “Não ter” implica sofrer da privação, “ter” tem como consequência a culpa, o sentimento de desmerecimento.

Na clínica esse processo aparecerá como resistência ao processo, atrasos, faltas, críticas ao trabalho e até mesmo o pedido de “dar um tempo na terapia”. Quando caminham para a saúde a culpa insuportável o leva a desejar sofrer impunimente, e aparecerá o famoso ciclo da auto-sabotagem. Costumo perguntar: “é muita pretensão ser maior que o pai?”.

No dia a dia vemos a necessidade da miséria particular em diversas situações, algumas delas como:No dia a dia vemos a necessidade da miséria particular em diversas situações, algumas delas como:

  • “Nossa que roupa linda” – Compre na Rener, paguei R$ 15.
  • “Como você está bem arrumado” – Peguei a primeira roupa que vi pela frente.
  • Pessoa vai fazer um crediário para comprar um bem e no processo sente a culpa de adquirir tal bem e quando o credito é negado sente alivio de continuar sem ter nada.
  • A vida vai bem e aparece a sensação constante de que algo muito errado esta prestes a acontecer.

São diversas as situações e finalizo o texto de hoje com uma situação que aconteceu recentemente na clínica, um homem de 50 anos veio a uma entrevista se queixando de uma vida impossível de ter algum prazer, não tinha vontade de nada, dizia não ter ânimo para nada, não se sentia amado, etc. Mas ao contar sua história, seu discurso não se sustentou, e o homem começou a desdizer o que havia dito e ao fim de sua fala se deu conta de que acabara de me contar uma vida cheia de realizações, muitas atividades, e que as pessoas a sua volta viviam se esforçando para mostrar o amor por ele. Ao final me olhou e exclamou, “que horror eu aqui dizendo isso e meu pai internado num asilo”.
Ficou agendada uma próxima sessão, mas assim que sai pensei: ele não vai suportar sair do sofrimento, a culpa é cruel. E passado dois dias me mandou mensagem, não estava pronto para começar o processo. Na escolha entre a culpa e o sofrimento, preferiu sofrer, mantendo-se na situação de escolha binaria dessa miséria particular que é a neurose.

Referência: Freud, S. – Esboço de Psicanálise

Saulo Durso Ferreira

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