A neurologia do estresse e sua relação com o trauma psíquico

Associação Livre , 19/06/2017

O termo estresse surgiu para designar as forcas envolvidas em uma situação de ameaça a manutenção da homeostase, sendo o sistema alostático responsável por essa manutenção. O organismo reage ao estresse ativando um complexo repertório de respostas comportamentais e fisiológicas, conhecidas como reações de “luta e fuga”, ja descritas no inicio do século XX por Walter Cannon. Genericamente, o estresse é referido como qualquer mudança física ou psicológica que rompe o equilíbrio do organismo, ou seja, altera a homeostase, gerando uma carga alostática cumulativa ao longo da vida, a medida que o sistema alostatico se torna sobrecarregado. Essa sobrecarga com frequência é apontada como um fator para o surgimento ou a manutenção de quadros psiquiátricos, como depressão, transtornos de ansiedade e esquizofrenia.

A resposta clássica ao estresse caracteriza-se por mudanças físicas e comportamentais, envolvendo o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA). A ativação do HHA causa a liberação de catecolaminas nas terminações nervosas e pela medula adrenal, alem da secreção de adrenocorticotrofina pela adeno-hipófise, estimulando a secreção de cortisol no córtex adrenal. Os níveis elevados de cortisol podem favorecer a atrofia de dendritos, da zona CA-3 do hipocampo, tornando-se tóxicos ao organismo se elevados cronicamente, embora sua elevação inicial seja importante para a resposta ao estresse. O cortisol em níveis elevados pode favorecer a suscetibilidade de neurônios a morte, tornando-os menos resistentes a adversidade como hipoglicemia, hipoxia e níveis elevados de aminoácidos excitatórios. De fato, indivíduos submetidos a situações de estresse muito intensas apresentam diminuição de estruturas hipocampais, disfunções hipotalâmicas e reprogramação do eixo HHA. Da mesma forma, indivíduos que sofrem traumas importantes na infância, como abuso sexual, apresentam níveis permanentemente elevados de cortisol mesmo na idade adulta. Essas crianças são mais propensas a desenvolver problemas psiquiátricos, como depressão, quando adultas.

(…) indivíduos que sofrem traumas importantes na infância, como abuso sexual, apresentam níveis permanentemente elevados de cortisol mesmo na idade adulta.

Estudos mostram que ratas separadas precocemente de suas mães apresentam comportamentos materno disfuncional com sua própria prole, com diminuição do contato fisico (comportamento de lamber e acariciar). Além disso, seus filhotes apresentaram resposta alterada ao estresse, como, por exemplo, a ativação do hormônio liberador de corticotrofina e a inibição da expressão de comportamentos e respostas neuroendócrinas ao estresse, o que fortalece a ideia de que a presença do comportamento de lamber e acariciar (cuidados maternos) pode ser determinante no desenvolvimento neuroendócrino. Isso enfatiza que as relações precoces e a qualidade dos cuidados nos primeiros anos de vida são determinantes no comportamento das pessoas ante traumas na vida adulta, mas também evidencia que são determinantes da expressão gênica e de todo o sistema neurológico de resposta ao estresse. p. 19

Livro “O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica” – Organizadores, Cláudio Laks Eizirik, Ana Margareth Siqueira Bassols
Porto Alegre: Artmed 2013