O que dar no dia das crianças?

Associação Livre , 11/10/2015

Situação 1: você chega em uma pastelaria e se depara com 118 sabores de pasteis, provavelmente demorará alguns longos minutos para escolher algum, outros até se irritarão simplesmente pelo fato de não conseguirem escolher. Por outro lado, se a pastelaria oferecesse 4 sabores, bom, já ficará mais rápida a decisão. Situação 2: um cachorro vive em uma casa onde moram 15 pessoas, todas elas são “donas” deste cachorro; em muitos dias, o melhor amigo do homem ficará sem comida, pois cada um de seus donos irá supor que o outro já o alimentou; por outro lado, na casa de um dono só, ou dois, não terá erro, cada um exercerá a sua responsabilidade.

Usei estas situações para tentar exemplificar, ou tornar acessível, uma ideia matemática: a proximidade entre zero e infinito; quanto mais próximo de um número absurdamente grande, mais próximo ele está de zero. Não tenho condições intelectuais para entender esta matemática, mas sei das consequências que este raciocínio tem dentro do pensamento psicanalítico. Nada pior para uma criança do que ter acesso a tudo livremente: se tudo ela pode, nada pode. O que eu quero dizer com tudo? Dormir na cama dos pais, comer o que quiser, assistir o que quiser, tratar qualquer um da maneira que quiser. Os tais pais “liberais” da atualidade, achando que estão criando filhos “livres” (afinal supõe que não foram e por isso tem a brilhante ideia de dar para eles tudo o que não tiveram), na verdade criam filhos sem noção de limites; limite do que é o outro, consequentemente do que é si-mesmo. Sem limite de acesso ao prazer, este  se tornará prazer fácil, que com o tempo, inevitavelmente, irá diminuir, diminuir, e novas doses de “liberdade” serão exigidas para se alcançar a satisfação. Um prazer infinito equivalente a zero.

Sem limite de acesso ao prazer, este se tornará prazer fácil, que com o tempo, inevitavelmente, irá diminuir, diminuir, e novas doses de “liberdade” serão exigidas para se alcançar a satisfação. Um prazer infinito equivalente a zero.

Lembro de que, tempos atrás, estava na fila de uma “brigaderia” de São Paulo e lá estava uma criança manhosa, com um Ipad numa mão e na outra um playstation portátil, reclamando que não queria ficar ali. A mãe pedia: “por favor deixa a mamãe comer um brigadeiro”, o pai do lado de fora ficava envolvido em seu celular, ignorando mãe-esposa e filho, provavelmente o Whatsapp estava mais interessante, ou pelo menos excitante. Desesperada, esgotada, ou sabe-se lá o que, a mãe sacou de dentro da bolsa um embrulho e deu ao filho, que por cerca de 40 segundos (cronometrados por mim) o menino investigou: mais um carrinho que ganhava, enfiou no bolso e continuou por sua fome de prazeres imediatos. Esta é uma cena que está cada vez mais comum, com algumas variações de situações, mas a estrutura é a mesma: criança sem o limite necessário em seu prazer, para justamente este prazer fazer sua função. Sabe a lei da oferta e da procura? Sem falta, não tem procura; para nós da psicanálise: sem falta não há desejo, sem desejo aparece o tédio, ou algo assim.

Esta é uma cena que está cada vez mais comum, com algumas variações de situações, mas a estrutura é a mesma: criança sem o limite necessário em seu prazer, para justamente este prazer fazer sua função.

Pedirei auxilio de alguns caras que podem endossar meu ponto de vista, começando com Freud que diz: é preciso amar para não adoecer; o que significa dizer: é necessário abrir mão de seu narcisismo (eu, eu, pra mim, eu , eu, eu por exemplo, me dá, etc) e investir seu “interesse” em elementos externos, pessoas de fora, o outro, reconhecer o outro, ou seja, reconhecer o limite do outro a partir do meu próprio limite, minha falta. Lacan seguindo nesta linha de Freud afirma: Amar é dar aquilo que não se tem, a quem não o quer; amar é dar a sua falta, seu limite, para o Outro, e ele não gostará muito de receber esta falta, justamente por que ela revelará a sua própria falta; aproveitando aqui já emendo com o conceito de Winnicott de “mãe suficientemente boa”; veja que não é uma mãe completamente boa, afinal ela precisa oferecer falhas, justamente para que o filho tenha o espaço necessário para “forjar” seu desejo (como bem disse Lacan no Seminário 10, que o que produz a ansiedade é justamente o excesso de cuidado do Outro materno); por fim, pra não dizer que só falei de psicanálise, trago Levi-Strauss que faz a seguinte afirmação: as interdições possibilitam as circulações; ou seja, quando eu interdito o número infinito de caminhos, reduzindo para, sei lá, uns 2, 3, eu possibilito às circulações, as movimentações (lembra da história do pastel?).
Isso explica (não só isso obviamente) por que no fim das contas o livre não é o louco, mas sim o “normal”; o louco por ter acesso a tudo (tudo que é igual a infinito e zero) está condenado a viver nesse prazer constante, que devido a sua constância apodrece, tipo manga suculenta; o “Normal”, justamente por ser limitado, está condenado a ser livre, justamente por poder escolher, e aqui sim, ele perde uma parte de seu prazer num primeiro momento e reencontra noutro.

E o que isso tem a ver na véspera do dia das crianças? Uma dica de que o melhor presente que os pais podem dar a um filho é a falta. Este texto foi inspirado principalmente após eu ouvir uma pesquisa dizendo que em média, as crianças no Brasil ganham seus celulares aos 8 anos, e a principal recomendação dos pais ao darem um celular é: não vá ficar gastando dinheiro com aplicativos… O problema é o “Portal para um mundo irrestrito” que o celular abre, se nem o adulto aguenta sua compulsão por este mundo, quem dirá crianças… crianças de 8, 9, 12, 13 que fazem “nudes” e enviado para os amiguinhos via whatsapp para “provar” o quanto já são maduras, Snapchat, perfis falsos de facebook que os próprios pais ajudam a criar muitas vezes (colocando a idade do filho como mais velho para burlar a proibição da própria rede)… Se os adultos em sala de aula (falo isso com a certeza do meu dia a dia de professor acadêmico) ficam com seus celulares a aula inteira “jogando seus polegares pra cima na tela” (recarregando páginas e mais páginas de vazios) quem dirá as crianças.

O problema é o “Portal para um mundo irrestrito” que o celular abre, se nem o adulto aguenta sua compulsão por este mundo, quem dirá crianças…

Será que neste dia 12 umas criança precisa de um celular mesmo? Na verdade isso pouco importa, a questão não é o celular, é o limite, e quem o deve dar o limite, transmitir a falta, transmitir o amor (no sentido apresentado mais acima do texto)? Dê às capacidade de desejar, base de toda a criatividade da vida.

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

[email protected]

Academia Freudiana

 

criança

 

Aqui está a matéria sobre o uso de celulares por crianças:

http://www.brasilpost.com.br/patricia-peck-pinheiro/celular-nao-e-brinquedo_b_5962712.html