Palestra: Paixão, ódio, ignorância e amor

Associação Livre , 21/08/2017

A existência é produto de um desejo de alguém, de um O(o)utro. Dizemos que se alguém nasceu é porque foi desejado, e claro que os desejos podem ser múltiplos, de amor, de fidelidade, de ódio, de vingança, etc. Mesmo nos casos em que a criança que chega ao mundo é abandonada, alguém toma para si a responsabilidade baseado em um desejo. Desta forma, reiteramos o que foi dito na primeira linha do texto, a existência é produto do desejo de um outro e um Outro.

Imaginário e o outro

Ignoraremos o “início mais precoce do humano”, reconhecendo aqui a importância da contribuição de Winnicott com seu “Desenvolvimento Emocional Primitivo”, e tomaremos um momento de crucial na concepção do sujeito para a Psicanálise que é justamente a passagem do autoerotismo para o narcisismo, possibilitado, de acordo com Freud, com o surgimento do eu (ego). No autoerotismo, o corpo da criança ainda é um “corpo despedaçado”, o que explicaria a incapacidade de um bebê se reconhecer em um espelho, perceber a unidade corporal sua e do outro.
Entre o 6 e o 18 mês de vida algo acontece e o bebê humano consegue olhar a imagem do espelho e reconhecer algo ali, o bebê vê a si mesmo no espelho, contudo não reconhece a si mesmo e atribui ser ali um outro bebê, o pequeno outro.
Durante este período assistimos ao jogo com a imagem, num primeiro momento, a outra criança do espelho. Aos poucos a criança começa a se deparar com a realidade duplicada, tudo o que há no espelho é o invertido do que há fora dele, e assim, inevitavelmente, se deparará com a constatação inevitável, aquele “outro bebê sou eu”. Temos aqui o ponto inaugural da consciência de si, o primeiro insight que amarra o corpo despedaçado numa relação de simetria com o corpo do espelho.
Mas aqui há um engano, a imagem do espelho já tem uma unidade consolidada, porém o real do corpo ainda é insuficiente. A alegria de se reconhecer num corpo inteiro faz com que a criança ignore sua insuficiência e de maneira antecipada toma a si mesmo como uma forma, uma unidade, dissimétrica ao real de si, formando assim o erro da percepção consciente que durará por todo o sempre, gerando aquilo que Lacan chama de “a quadratura inesgotável dos arrolamentos do eu”.

A criança assim se apaixona por si mesmo, início do narcisismo. Dai em diante teremos o efeito de báscula, pois nem a todo momento a criança conseguirá reconhecer a si mesmo, fazendo com que sua imagem volte a ser o outro. Inicia-se a alternância paixão-ódio.
Esse espelho pode ser pensado de três maneiras: o espelho físico, o espelho como a imagem das outras pessoas e o espelho como o olhar de desejo “materno” (não a mãe, mas a função, que nesse primeiro momento inclui o pai e a todos os outros).
Baseado em Hegel Lacan dirá que o desejo se alimenta de desejos, e, sendo assim, a criança “procurará” se montar ao olhar do outro para que o desejo apareça como forma de confirmação do seu eu (ego).

Simbólico e o Outro

O olhar de desejo do outro materno não deixa dúvida sobre o que a criança deve ser para ser desejado, porém, na saúde, este outro, com o tempo, olhará para além dessa criança, e a certeza que existia até então será abalada pela duvida da questão: a quem o outro materno olha e deseja?
Essa perda do olhar causa a ferida narcísica, a quebra imaginaria, o aparecimento da hiância, que chamaremos logo mais de real. Frente a essa ferida o sujeito precisará suturar o corte, sendo a linguagem o único meio possível (na saúde). A criança começa a falar, afinal, não é isso que Freud nos revela em Além do Principio do Prazer, com o exemplo de seu neto nomeando e manipulando o afastamento da mão como forma de suturar essa quebra de presença?
Mas atenção, apesar da palavra aparecer como suporte necessário nesse momento não significa que sua importância não seja anterior, Françoise Dolto, por exemplo, falava com bebês desde muito prematuros. Não sabemos exatamente quando a linguagem fará laço social com o outro de maneira plena, mas quando isso ocorrer é necessário que as palavras estejam lá. Como um trem, que quando for inaugurado seu funcionamento dependerá que os trilhos já estejam lá colocados.
A essa dimensão da palavra damos o nome de simbólico, e que sabemos muito bem que, enquanto o imaginário não deixa dúvida (insight, certeza), o simbólico é o campo do duplo sentido. Isso porque a palavra tem ao menos duas vias, a do significado e a do significante. O significado é um eixo vertical e corresponde ao conceito da palavra, enquanto o significante é um eixo horizontal que corresponde ao contexto. Apesar de conceitos complementares podemos garantir uma coisa, o que escutamos da palavra é seu significante, afinal, por mais que o outro saiba o sentido do que diz, eu escutarei a palavra dentro do universo de palavras que me constituem, por isso é possível dizer que: o emissor pode garantir o que diz, mas não pode garantir o que o receptor escutou.
Mas lembremos que, mesmo o emissor que “sabe” o que diz, recebeu estes significantes de um Outro, ou seja, o saber está sempre no Outro, e esse Outro onde está? Outro do Outro, do Outro, do Outro… O Grande Outro.

O real e sua ex-sistência

Retomaremos agora a ferida Narcísica, a quebra da imagem, a hiância que chamaremos de real. Enquanto o imaginário funciona como lugar de certeza, do sentido pleno, o imaginário o lugar do duplo sentido, o real é ausência de sentido, o inominável, o impossível, etc. O real é tudo aquilo que não é imaginário e simbólico, por isso seu tamanho é impossível calcular. Antes do nome ele está lá, e no limite da linguagem estará lá mais uma vez.
De acordo com Lacan, a existência é produto da linguagem, e desta forma, o real por não ter nome não existe, porém insiste em ser nomeado. Imagine um tabu que ninguém fala sobre ele, e justamente por ninguém nomear parece atrair nomeações, assim como ocorre no trauma. Por isso podemos considerar que o real não existe mas ex-siste.
Se deparar com o real é se deparar com a angústia! Um sofrimento sem nome, sem representação, angústia em estado bruto. Assista ao trecho do filme sobre Nise da Silveira o momento de ciúme de um sujeito que não o pode nomear, e veja o sofrimento na sua forma real, inimaginável.
O real é o passado, antes da linguagem, e o futuro, o final da linguagem, para além dos limites imaginários. Por mais que nomeamos uma coisa, possibilitando assim sua existência, sempre algo escapará, algo sempre resiste a nomeações e significações, o real insiste.

O nó borromeano e o amor

Para Lacan a tríade RSI é indissociável na apreensão do sujeito e seus fenômenos. A clínica lacaniana se fundamenta no nó dessas três dimensões, que formam o nó borromeano. Eliminar qualquer um dos elementos teríamos:
A paixão está situada na junção entre o simbólico e o imaginário. Na paixão, portanto, o real está elidido, a paixão não admite a perda, a
separação.
O ódio está na junção entre o real e o imaginário. Nele falta o simbólico, ou seja, falta a palavra em sua função de mediação. No ódio, o embate entre o sentido e o não-sentido é mortífero, nele os tratados são rompidos, os pactos rasgados, surge a guerra; a diferença se torna incompatível, já que o simbólico não pode assegurá-la. Ingressamos no regime de “ou um” “ou outro” (p. 36).
A ignorância está na junção entre o real e o simbólico. Nela o imaginário está elidido, inviabilizando a produção de sentido. Na ignorância resta e insiste uma interrogação.
O amor está justamente na presença dos três elementos, a captação imaginária do outro e de si, o risco da perda e da separação, o risco da ferida que é o risco de se desejar e por fim a elaboração desses riscos, as nomeações imprecisas do que é amar. Implica aposta, implica falar de um lugar, mas nunca cristalizar num lugar.
Amar não é cativeiro, como diz Shakespeare. Amar está mais para Rubem Alves, “amar é ter um pássaro pousado na ponta do dedo…”.
Ou para ser mais psicanalítico: amar é dar aquilo que não se tem a quem não o quer. E isso é a clínica.

Referências

Coutinho Jorge, M.A. – Lacan, o grande freudiano

Freud, S. – Introdução ao narcisismo

– Além do princípio do prazer

Lacan, J. – Seminário 11

– Escritos