Psicólogo precisa de psicoterapia?

Associação Livre , 11/10/2017

Quantas vezes as pessoas vão a um tipo de profissional que oferece determinado serviço e que aparentemente o serviço prestado não funciona para o próprio profissional? Por exemplo ir a um nutricionista obeso, ou a um oftalmologista que usa óculos, um cabeleireiro careca, e assim por diante. Obviamente que esta fala inicial nada mais é do que um comentário do senso comum, mas que, como todo saber comum, tem lá sua verdade.

Você iria num psicólogo que visivelmente apresenta sérios problemas psicológicos, diversas questões mal resolvidas ou cheio de preconceitos?

Claro que os psicólogos também sofrem com suas questões emocionais e psíquicas, e isso não é um problema, a questão está quando este profissional não cuida de si através de um outro e fica preso num narcisismo de que “consegue resolver suas próprias questões com auto análise” ou então naquela famosa negação: sem tempo, sem dinheiro ou que não é o momento. Psicólogos que resistem aos psicólogos.

Você iria num psicólogo que visivelmente apresenta sérios problemas psicológicos, diversas questões mal resolvidas ou cheio de preconceitos?

Na faculdade sempre costumo dizer para meus alunos e supervisionandos: “cada um atende o paciente que merece”, um brincadeira que no final sempre resulta em acerto, e depois do primeiro atendimento costumo escutar desses que atenderam: você estava certo, a questão de fulano é parecida com a minha.

Mágica? Adivinhação? Não! Como diz Lacan: a resistência é sempre do analista. O que acontece é que aquilo que é mal elaborado no psicólogo funcionará como resistência na escuta do outro, não se trata da mesmíssima história, mas se trata de uma história que passa por várias vias, e as vias em “carne viva” do psicólogo que não se cuida são afetadas e ressoam de maneira contratransferencial.

Acredito que um psicólogo sempre deverá estar em um processo psicoterapêutico com outro profissional, claro que existem pausas, final de processo, mas será que a análise é terminável? Mesmo aquele profissional que fez anos e anos de análise, não seria bom vez ou outra, usar o outro para se escutar mais um pouco?

Agora com relação a estudantes de psicologia não há dúvidas de que a psicoterapia é necessária. Primeiramente para cuidar de si mesmo, além do estado que o sujeito chega ao curso, muitas coisas vão sendo afloradas, cutucadas, inibidas etc, ao longo das aulas. Quantas aulas de teorias da personalidade ou de psicanálise vejo aluno saírem desconcertados, chorando, confusos, irritados e até com delírios paranóicos. Também é preciso pensar no aspecto ético. Como cuidar de alguém se o sujeito não cuida de si? Como escutar alguém que não se escuta através do outro? E por fim, de utilidade prática, ser atendido por alguém servirá de modelo para quando chegar a vez do aluno começar a atender. Não que ele deva copiar o profissional, mas terá um ponto de referencia para se espelhar ou repudiar.

Na faculdade sempre costumo dizer para meus alunos e supervisionandos: “cada um atende o paciente que merece”

A formação de um bom profissional (que leva a vida toda) se baseia num tripé: análise pessoal, estudo e supervisão, sem um desses elementos algo manca, ou o sentimento do profissional atrapalha sua escuta, ou o raciocínio sobre os casos fica raso e preguiçoso, ou então ficam num prática que abre mão de qualquer tipo de crítica reflexiva.
Walter Trinca (1984) coloca que o bom profissional é aquele capaz de realizar uma “dissociação instrumental”, que consiste em:

“Uma atitude técnica em que o profissional não responderá, como normalmente acontece, a partir da configuração emocional e cognitiva que o comportamento do outro elicia nele, mas deixará de atuar suas respostas por dois motivos principais: em primeiro lugar para permitir ao outro a maior expressão possível de sua subjetividade, que não tenderá a se acomodar ao padrão de conduta do interlocutor; e em segundo lugar permitir a si mesmo um pensar mais profundo acerca de sua própria resposta interna, a qual, no profissional devidamente analisado, é, com grande probabilidade, eco do que se passa na mente do entrevistado. (p. 48).

E continua com a seguinte questão: “quais são os requisitos que o profissional deve preencher para estabelecer o enquadramento e realizar a dissociação instrumental?” E eis sua resposta”

“De um lado existe a necessidade de conhecimentos psicológicos, os quais são obtidos academicamente e considerados suficientes para a concessão do titulo profissional e da autorização para o exercício da profissão; de outro lado é fundamental o conhecimento de si próprio que garante a possibilidade de estabelecer o campo adequado do trabalho. (p. 49)”

“Conclui-se que muita coisa é requerida daquele que pretende ser psicólogo clínico para que possa realizar psicodiagnóstico, psicoterapia e outras tarefas próprias da área. Seu difícil trabalho se alicerça, como vimos, em três pontos principais: nos conhecimentos teóricos e técnicos acerca da Psicologia, na terapia pessoal, e nos estágios que se realizam sob a orientação direta e pessoal fornecida pelo supervisor” (p. 50)

Seu difícil trabalho se alicerça, como vimos, em três pontos principais: nos conhecimentos teóricos e técnicos acerca da Psicologia, na terapia pessoal, e nos estágios que se realizam sob a orientação direta e pessoal fornecida pelo supervisor”

Espero que as reflexões trazidas aqui acompanhe a formação do analista ao longo de toda sua trajetória, seja estudante, formado e até mesmo aqueles com muitos anos de profissão. Para os estudantes de psicologia deixarei disponível o endereço da pagina do CPEP: Clínica Psicanalítica para Estudantes de Psicologia, em que uma equipe de psicanalistas oferecem atendimento psicanalítico por preços mais acessíveis.

www.facebook.com/cpep.psicanalise

 

Trinca, Walter – Diagnóstico Psicológico, 1984

 

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