Quando o debate acaba a violência é inevitável

Associação Livre , 17/10/2018

Em tempos de extremismo de posições políticas, fica muito clara a necessidade da articulação de três elementos para a existência do respeito e reconhecimento entre as pessoas.

Em Psicanálise (lacaniana) consideramos três registros da experiência humana: real, imaginário e simbólico. Estes registros funcionam como parâmetros de compreensão clínica, mas também como configurações que se estruturam no processo de constituição do sujeito. Apesar da complexidade que envolve cada um desses registros, para ilustrar a ideia que trago aqui, vamos considerar da seguinte forma: real como sendo a falta de sentido ou o indizível; o imaginário como o sentido absoluto ou a certeza e o simbólico o registro do duplo sentido ou da dúvida.

Lacan postula que estes três registros se associam fazendo um nó, o chamado “Nó Borromeano” e que seu mínimo é três. Mas o que ele quer dizer com isso?

 

Simbólico com Imaginário sem Real

 

A paixão está situada na junção entre o simbólico e o imaginário. Na paixão, portanto, o real está elidido, a paixão não admite a perda, a separação.

 

Real com Simbólico sem Imaginário

 

A ignorância está na junção entre o real e o simbólico. Nela o imaginário está elidido, inviabilizando a produção de sentido. Na ignorância resta e insiste uma interrogação.

 

Real com Imaginário sem Simbólico

 

O ódio está na junção entre o real e o imaginário. Nele falta o simbólico, ou seja, falta a palavra em sua função de mediação. No ódio, o embate entre o sentido e o não-sentido é mortífero, nele os tratados são rompidos, os pactos rasgados, surge a guerra; a diferença se torna incompatível, já que o simbólico não pode assegurá-la. Ingressamos no regime de “ou um” “ou outro” (Coutinho Jorge, Lacan o Grande Freudiano, p. 36).

 

Quando o mínimo do “Nó” não é três temos essas três cegueiras: a paixão, que idealiza em absoluto o seu amado; a ignorância, que mantêm o sujeito numa falta de posicionamento absoluto, uma neutralidade patológica e, por fim o ódio, quando a linguagem com seus sentidos múltiplos é eliminada só resta o regime de exclusão: ou pensa igual a mim ou morre!

Saulo Durso Ferreira

 

 

 

O ódio está na junção entre o real e o imaginário. Nele falta o simbólico, ou seja, falta a palavra em sua função de mediação. No ódio, o embate entre o sentido e o não-sentido é mortífero, nele os tratados são rompidos, os pactos rasgados, surge a guerra; a diferença se torna incompatível, já que o simbólico não pode assegurá-la.