Temporalidade, previsibilidade e segurança em Winnicott

Associação Livre , 22/11/2016

Winnicott se propôs a trabalhar com aqueles pacientes que, de acordo com ele,  “ainda não chegaram a ser uma pessoa”.  Antes das questões triangulares, e até mesmo antes das relações objetais, o ser humano precisa se tornar uma unidade. O ser está ali em potencial, mas existe um delicado trajeto a ser alcançado, e, desta forma, Winnicott postula que, inicialmente, o que há em um bebê humano é uma tendência inata a integração (não cabe aqui desenvolver toda a complexidade que este termo comporta). A integração é uma palavra chave em Winnicott, pois todo o processo de amadurecimento emocional do ser humano visa integrar experiências, sendo a ultima das experiências a integração da morte (como ele mesmo afirma: “espero estar vivo na minha morte”).

Winnicott chamou este processo de desenvolvimento emocional primitivo, caracterizado por três tarefas a serem alcançadas pelo bebê: integração (no tempo e espaço), personalização e realização. Focarei aqui neste pequeno texto numa parte da primeira tarefa integrativa, a temporalidade (vale ressaltar que estas tarefas estão colocadas nesta ordem esquemática apenas para fins didáticos, pois estes processos acontecem todos ao mesmo tempo e o tempo todo).

Uma das experiências fundamentais para a saúde psíquica de um indivíduo é a experiência do tempo, um tempo que tem passado, presente e futuro. Podemos pensar nesta integração temporal por diversas óticas, mas aqui apontarei para a experiência do cuidado repetitivo. Um bebê necessita de cuidados ambientais (lembrando que a função do outro em Winnicott é de ambiente, ou seja, o bebê esta contido dentro de seus cuidados) e este cuidados precisam ser baseados na monotonia e, de preferencia, de uma mesma pessoa. O bebê precisa se acostumar com os padrões de cuidados, ele precisa inclusive, e principalmente, prever o que virá como cuidado, isso contribui para a experiência de continuidade de ser.

É necessário um cuidado nesse ponto, não se trata de um cuidado repetitivo feito por uma serie de especialistas, isso traria a experiência de ser máquina, afinal, especialistas com suas práticas se tornam cade vez mais práticos ao ponto de não errarem como humanos e, o bebê humano, precisa das repetições de um outro humano em suas imperfeições e de maneira previsível.

(…) o bebê humano, precisa das repetições de um outro humano em suas imperfeições e de maneira previsível

Uma criança se delicia com jogos de repetição, ela sabe o que esta por vir, mais tarde ficará fascinada por historias infantis repetidas, em que ela possa prever o que irá acontecer. Experimente contar uma historia conhecida pela criança e mudar seu final, ela não aceitará, se queixará. A experiência do previsível possibilitará a criança usar o tempo de maneira transicional e, no seu tempo, poder incluir novos elementos na sua experiência integrativa.

Na clínica certos pacientes precisarão ser repetitivos, buscarão os clichês de seus analistas, buscarão detalhes da sala de atendimento para que possam prever, familiarizar-se com o ambiente, e sabendo que o tempo esta sendo sustentado pelo ambiente poderá ampliar as possibilidades de ser.

Referencia:

Greenberg & Mitchell – Relações objetais na teoria psicanalítica

Winnicott – Da pediatria à psicanálise

– Explorações psicanalíticas

Saulo Durso Ferreira

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