Transtorno de Personalidade – Felicidade

Associação Livre , 26/05/2015

Recentemente li em um livro “O livro negro da psicopatologia” o comentário sobre o trabalho de um psiquiatra, Richard P. Bentall, que propõe que a felicidade seja classificada como um transtorno psiquiátrico no próximo DSM… (pausa) nessa altura alguns dos meus colegas de profissão já devem estar indignados, mas calma, olha só o sentido dado por ele.
Bental fica no limite entre o cômico e a seriedade e levanta uma discussão polêmica sobre o manual diagnóstico e seus critérios de classificação baseados principalmente em resultados estatísticos. Estatisticamente a felicidade é anormal e porque não incluí-la entre os muitos transtornos? Vejamos se faz sentido:
“A felicidade seria um estado neurofisiológico de desinibição (…). Há certa relação entre felicidade e mania (…). É provável que se encontre certo distúrbio do sistema nervoso central (…). Encontram-se com certa frequência relações entre a felicidade, a obesidade e a ingestão de álcool (…). Implica uma má adaptação à realidade (…). (p. 20)
O pedido de Bental foi sério, a comunidade científica riu, riu até riso cessar e ficar sem graça e perceber que critério não é o que falta. Será a felicidade uma grande psicopatologia? Já foi a era da histeria, o século da depressão e pelo jeito teremos pela frente um epidemia de felicidade, que horror será o mundo feliz, pessoas transmitindo umas pras outras… melhor parar por aqui, o final disso seria feliz demais.
Tenhamos a sorte que a felicidade seja de vez classificada como patologia e erradicada, ou ao menos controlada com novos remédios, já não basta essas crianças querendo brincar o tempo todo, cheias de energia e vida… Crianças brincando quando tem que ser sérias!!! Um absurdo essa tal de hiperatividade. Hiperatividade de um lado, felicidade do outro… Por sorte os laços familiares cada vez mais precários, o trabalho escravizante, a incapacidade de cuidar do outro por nunca ter sido cuidado (“sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar” – Esquinas, Djavan), as relações humanas cada vez mais descartáveis, assim como as mercadorias (ou nós somos mercadoria também?), os aparelhos eletrônicos, o facebook… ah! que alívio, uma porção de elementos para contribuir na minha “dissociação” da vida, nada como o déficit de atenção pra me livrar desse horror do regozijo.
Pois bem, não consegui escrever nem um terço daquilo que sinto ao tratar de tal assunto, também pudera, um cara como eu tão adoecido não poderia fazer coisa melhor. Mesmo com esses meus problemas psiquiátricos, a saber: hiperatividade, déficit de atenção, felicidade (agravada por um insuportável otimismo), etc, escrevi.
A sorte de tudo isso é que as pessoas estão sumindo e passando a se chamar Transtorno Tal, o ser humano deixado de lado e sendo visto por onde realmente importa, seu lado mais “doente”, como diria Oswaldo Montenegro: “Quantos defeitos sanados com o tempo era o melhor que havia em você”. O livro sobre nossas vidas será um compêndio de psiquiatria, no fim “O Alienista” de Machado de Assis estava certo… mas esse autor devia ser doente também, pelo menos necrófilo com sua “Memórias Póstumas”.

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

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Academia Freudiana

felicidade forçada