Trocar de analista vale a pena?

Associação Livre , 14/07/2015

Essa é uma pergunta que ouço com frequência, tem aqueles que, por algum motivo, interromperam sua análise e que pretendem voltar, assim como aqueles que estão em um processo terapêutico, mas sente que o processo se estagnou. O primeiro e o segundo grupo perguntam: Devo continuar com o mesmo ou mudar? Obviamente que esta pergunta pode ser fundamentada numa posição histérica do sujeito em apontar as “falhas” de um terceiro (o analista), e para esses indico: continue! – afinal a inflamação de seu sintoma se situa aí. Contudo, existem aqueles que parecem de fato se perguntar: troca de analista, terapeuta, vale a pena?

Geralmente eu ouço destas mesmas pessoas, e de pessoas que as cercam, para que continue com o mesmo, afinal ali já existe uma familiaridade, a relação é mais íntima, ele(a) já sabe da história, etc. Talvez o melhor termo aqui seja mutualidade, uma expressão emblemática de Winnicott, ao se referir por exemplo, ao gesto do bebê em colocar o dedo na boca da mãe, durante a amamentação, em retribuição aos cuidados despendidos por ela. Expressão no entanto, utilizada anteriormente por Ferenczi, ao se referir ao ato sexual, em que: “no coito não se coloca a questão de egoísmo ou altruísmo, há somente mutualidade o que é bom pra um é certo para o outro”. Independente de ser por um ou outro, a mutualidade possibilita um certo silêncio, um direito de nada dizer, ou então de dizeres carregados dos “mesmos sentidos” para paciente e terapeuta. Basta o paciente balbuciar uma frase e direcionar um olhar do tipo “sabe do que estou falando né?” e pronto, todos se entenderam… mas será?

Acredito na mutualidade, mas duvido de que ela sempre seja necessária, ou que sempre ocorra. Pra mim isso pode ser uma situação mantenedora de “palavras velhas”, palavras gastas, já ditas, malditas, benditas e que por sua convivência com o seu narrador (paciente) já nem sabe mais o que significa. Quantas vezes me surpreendi em análise, na minha, em que eu sou o (im)paciente, ao ter que dizer de novo uma coisa que já disse outrora e que quando falo as palavras simplesmente caem num vazio; quantas palavras e frases que pego do “Romance da minha vida” que ao serem ditas novamente já não conservam seu sentido, ou ainda, revelam seu atraso em relação a minha verdade atual.

“palavras velhas”, palavras gastas, já ditas, malditas, benditas e que por sua convivência com o seu narrador (paciente) já nem sabe mais o que significa

Buscar um novo analista obriga o sujeito a se recontar, sem o olhar do “você sabe né”. Não, não há; é preciso (re)começar, e neste processo perceber que certas palavras caducaram, que novas palavras são necessárias, novos significantes precisam surgir para fazer laço com o sintoma, afinal, o sintoma é a mola do discurso e este tem que manter sua circulação, falando do sujeito para o sujeito, falando do Outro e do outro para o sujeito e falando do sujeito para o Outro. Claro que uma boa análise se renova sempre, e o sujeito sempre é posto a falar, mas agora, ficar estagnado, sessões terapêuticas que parecem “reunião de tupperware”, neste caso, será que algo está errado? … terapeuta-amigo, que dizer, pagar para ter um amigo?…

Por isso quando me perguntam: devo trocar de analista? Prefiro dizer: é preciso se recontar e para isso precisa encontrar um profissional que dê este lugar. Analistas “sabidos demais”, de acordo com Winnicott, são como aquelas mães que tiveram muitos filhos e por isso se antecipam a eles, e estes adoram enfiar palavras na boca de seus pacientes, os vendo como “obras de arte” que precisam de retoque, e o mesmo Winnicott dirá, “e quem quer ser obra de arte de alguém?!”.
Saulo Durso Ferreira

 

Analistas “sabidos demais”, de acordo com Winnicott, são como aquelas mães que tiveram muitos filhos e por isso se antecipam a eles

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

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Academia Freudiana

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