Um não saber ou um não querer saber? E o analista, dá ou desce?

Associação Livre , 18/04/2018

Freud, no trabalho em que retoma as recordações da infância de Leonardo da Vinci, em determinado momento se debruça sobre as insistentes perguntas infantis e deixa muito claro um ponto em especial:

“A ânsia de saber das crianças pequenas é atestada por seu incansável gosto em perguntar, que para um adulto é algo incompreensível enquanto não percebe que todas as perguntas são apenas rodeios, que não podem ter fim porque substitui uma só pergunta que a criança não faz (p. 137)”.

A pergunta que a criança não faz se refere a diferença sexual, muito mais do que o impossível de se perguntar, mas um impossível de saber. Se por um lado a constituição da subjetividade se dá através de processos de identificação, e este são processo que nos une ao outro, por outro lado existe aquilo que nos afasta, neste caso se fosse alguma junção seria justamente para contornar o impossível.

Lacan, de maneira cirúrgica afirma: “a neurose é uma pergunta!”. E podemos completar, uma pergunta que o sujeito faz ao analista e que dela não quer saber a resposta. Parece uma ideia absurda, a pessoa procura a análise em busca de um saber sobre algo, mas faz todos os esforços possíveis para disso nada saber, nem que para isso tenha que faltar, sentir aquela sensação de que não está vendo resultado na análise, ou que o tempo está mais curto, ou estes muito caro, etc.

O que está por trás desse movimento “perguntar e não querer saber?”. Desejo! O desejo e a sua principal característica, ser indestrutível:

“(…) O termo indestrutível, aqui está justamente que é pela realidade de todas a mais inconsistente que ele é afirmado. O desejo indestrutível, se ele escapa ao tempo, a que registro pertence na ordem das coisas?” (p. 38-39 Seminário 11)

A indestrutibilidade do desejo leva ao questionamento e a recusa de saber parece se referir ao tempo, um tempo que não quer saber do presente, do tempo presente. O tempo na neurose ou é cedo demais ou tarde demais, e esta configuração “tarde” ou “cedo” está ancorada na cena primitiva, a cena traumática (aquela que as crianças não perguntam):

“(…) por que a cena primitiva é tão traumática? Por que ela é sempre muito cedo ou muito tarde? Por que o sujeito encontra nela ou prazer demais – pelo menos foi assim que primeiro concebemos a causalidade traumatizante do obsessivo – ou de menos, como na histérica?” (p. 73).

Assim temos: o sujeito se explica, sabe de si, mas, em algum momento se desconhece (ainda que eu acredite e que constate na clínica que o desconhecimento é cíclico), nesta hora procura uma análise, e chega munido de uma pergunta (dando-lhe o estatuto de uma neurose), e após sua pergunta posta quer uma resposta. O que faz o analista nesta hora? Dá ou desce?

Caso dê, o analisando ficará ali na tapeação imaginária apaixonada. Burocratizando sessão após sessão de análise, para nunca chegar na questão pois ainda é muito cedo, ou então, tarde demais.

“Ao persuadir o outro de que ele tem o que nos pode completar, nós nos garantimos de poder continuar a desconhecer precisamente aquilo que nos falta”. (p. 132)

Caso desça, caso pague com seu ser (o analista), caso falte ao analisando provocando seu desejo, poderá convidar para uma caminhada em que o “agora” poderá aparecer a qualquer momento, afinal, como não sabe o que busca, poderá ser surpreendido a qualquer momento. (Diferentemente do saber o que busca e não querer saber, contornando sempre o que sabe e não quer).

Isso revela o que há de essencial na análise: “o essencial era quando tinha um troço angustiante impossível de teorizar: era para lá que se tinha de ir”. (Didier-Weill & Safouan, p. 23).

Todo esse texto pode ser substituído por um exemplo simples. Quando esquecemos de um nome, num lapso, se de fato não soubéssemos do que nos esquecemos não saberíamos sinalizar se a sugestão do outro (é nome tal? E que tal nome x? Etc) está correta ou errada, seria um “não saber e pronto”. Porém, mesmo não sabendo qual é, sabemos qual não é. Será que nisso não há um “não querer saber”?

Freud, S. – Uma recordação da infância de Leonardo da Vinci

Lacan, J. – Seminário 11

Didier-Weill, A. & Safouan, M. – Trabalhando com Lacan

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