Um psicólogo recém formado pode ser uma ótima opção

Associação Livre , 26/08/2016

Muitas pessoas me pedem indicação de psicólogos e, geralmente, seguindo o mesmo clichê: bom, experiente, barato, perto do metrô e que atende de sábado. Independente de nesse pedido carregar a tentativa, via fantasia, de voltar ao útero materno (sujeitinho folgado, não?), vou focar num dos pontos pedidos: psicólogo experiente.

Realmente um psicólogo experiente é atraente, alguém de vasto conhecimento e longa data de trabalho, nada mais seguro, certo? Nem sempre! Não pretendo aqui criticar profissionais experientes, mas pensar o outro extremo, os psicólogos recém formados, eles serão confiáveis?

Tenho a experiencia de conviver, supervisionar, orientar, atender, alguns psicólogos recém formados e muitos deles são extremamente dedicados. Carregados de uma porção de livros (que abordam várias questões, entrevistas, términos, diagnósticos, teorias, etc), andam pra cima e pra baixo “quebrando” a cabeça e constatando dia a dia, na prática clínica, que a faculdade dá uma semente e que só clinicando todo este potencial se realizará.

Alguns trabalham com outras coisas paralelamente, trabalham o dia inteiro em um banco, um escritório, e depois do expediente vão para uma salinha alugada por período pra atender alguém. Alguns atendem em mais de um lugar de São Paulo, atendem um aqui, pegam o metro para outro extremo da cidade  e atendem outro. É muita vontade de trabalhar, de atender, de viver a experiência que tanto falaram ao longo de cinco anos de faculdade. Tem professor(a)(x) de inglês e entre suas aulas particulares atendem alguém, outro são músicos(as)(xs), outros estão achando brechas para trabalhar enquanto estão vivendo a grande tarefa de ser mãe, pai, etc.

Encaram a profissão com seriedade se utilizando do importante tripé: fazer terapia + supervisão + estudos. Muitas vezes, todo dinheiro ganho é investido completamente neste tripé. Mas não se abalam, tudo isso é recompensado com os acertos na clínica, e mesmo os enganos, quando em supervisão conseguem tirar disso um aprendizado.

Aos sábados de manhã estão lá nos grupos de estudo, alguns caindo de sono, com aquele rosto misto de exaustão e empolgação. Quantas mensagens no whatsapp “pelo amor de Deus preciso de supervisão”, ou “to com uma dúvida, o que posso ler”. Eles não param, praticamente entram naquilo que Winnicott chamou de “Preocupação Materna Primária”.

Claro que existem recém formados de má qualidade, assim como existem “dinossauros”da psicologia que estão cristalizados em seus próprios sintomas e já vivem na sua resistência. Por isso, marque uma entrevista, é na experiência da entrevista que poderá saber se é aquilo que procura ou não.

Um recém formado pode oferecer uma escuta ímpar, de alguém que segue a risca (mesmo que sem saber) o que Freud afirmou: cada paciente é uma nova Psicanálise.

 

Saulo Durso Ferreira

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