Você não é mais o mesmo(a)!

Associação Livre , 05/10/2015

Porque o amor, só assim se configura, como amor, na medida em que leva em consideração o ódio e a possibilidade de seu fim. Dizem que o que caracteriza o animal humano é sua consciência da morte, e amar implica poder morrer, chegar a um final. Quem detém o infinito é a paixão, que nos cega e nos faz sentir imortal; nos cega tanto que sequer enxergamos uma fresta qualquer que revelaria que o que desejo na paixão nada mais é do que a mim mesmo projetado no outro. Quando a paixão desencanta, quando minha fantasia projetada perde para a realidade eu vejo, e sinto ódio.  Na verdade ele é o mesmo de sempre, os meus olhos que mudaram e agora podem enxergar algo além de mim mesmo. O que resta de tudo isso senão o amor? O amor, que não é perfeito, que às vezes anda aos trancos e barrancos, amor que nos faz reciclar tantas vezes nossos sentimentos, repassar a nossa história, e nos encantar com os detalhes que no fim, fazem tudo aquilo valer a pena. E a trilha sonora de todo esse amor é o silêncio possível de um dia… O dia em que a pessoa que amamos não estará mais lá. Dela só restará ausência. Na medida em que posso perder que desejo de maneira amorosa; é na medida em que posso morrer que faço algo da minha vida. A certeza me mantém parado, o animal alimentado adormece, a dúvida me põe a andar, se preferirem por Hegel ele dirá: “ao contrário do conhecimento que mantém o homem em quietude passiva, o desejo torna-o inquieto e leva-o à ação”.

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Professor e Supervisor de Psicanálise da FMU

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Academia Freudiana

espelho

Ódio de mim por ter acreditado em uma imagem pintada com os meus desejos, e acuso o outro nesta hora: você não é mais o mesmo de quando te conheci!