XBOX e o Complexo de Édipo

Associação Livre , 18/05/2020

A Psicanálise pode ser pensada nos lugares mais inusitados e de forma surpreendente…

Um adolescente encontra um antigo Xbox que não jogava desde sua infância. Quando criança jogava com seu pai, mas este faleceu quando o menino tinha 6 anos, e para aliviar a dor da perda, guardou seu video-game e deixou lá parado por dez anos. Na adolescência reencontra o console e resolve ligar, selecionando um jogo de corrida que jogava com seu pai, mas que sempre perdia para ele. Tentou inúmeras vezes superá-lo, mas a habilidade paterna era superior. Dez anos depois, sua destreza com jogos ampliou em muito e agora, retomando o antigo jogo, começou a correr tão rápido quanto o pai corria. Para sua surpresa, nesse jogo quando o jogador está próximo a bater o recorde da pista, o detentor do melhor tempo aparece como carro fantasma, e neste caso apareceu o pai do adolescente. Por diversas vezes ele corre, superando o pai em várias curvas, retas e trechos da pista, mas na hora de passar a linha de chegada ele freia, deixa seu pai passar na frente. Pois caso supere o fantasma desaparece. Prefere assim sempre perder, para que o pai possa continuar ali, como seu limite intransponível sob a forma de uma fantasma amado e rival.

Ilustração perfeita de onde se localiza o pai ao final do Complexo de Édipo.

O relato

“Bem, quando eu tinha quatro anos, meu pai comprou um Xbox. Você sabe, aquele primeiro ‘quadradão’ de 2001. Tivemos horas, horas e horas de diversão jogando todos os tipos de games juntos — até que ele morreu, quando eu tinha 6 anos”, disse ele.

“Eu não consegui tocar naquele console por 10 anos. Mas uma vez o fiz e notei uma coisa. Nós costumávamos jogar um título de corrida, o RalliSport Challenge, que era muito impressionante na época que foi lançado”, comentou o adolescente.

“Voltei a mexer no jogo até que encontrei um fantasma. Literalmente. Você sabe, quando uma corrida de tempo ocorre, a volta mais rápida já feita permanece gravada como um piloto fantasma?”, explicou o jovem.

“Sim, você adivinhou: o fantasma em questão era do meu pai e ele ainda percorre a pista até hoje. E então eu joguei, joguei e joguei até quase conseguir bater a melhor marca. Finalmente, eu passei na frente do fantasma, estava ganhando e… Eu parei bem na linha de chegada, apenas para assegurar que não iria excluí-lo”, finalizou.

 

 

Saulo Durso Ferreira