Atos Falhos (parte final) – Deformação Freudiana

Deformação Psicanalítica , 11/07/2020

Os atos falhos são dotados de sentido?

Freud reconhece que os atos falhos são psíquicos e se propõe a entender o sentido de um processo psíquico, “esse sentido nada mais é que a intenção e que esse processo serve e a posição dele em uma cadeia psíquica” (p. 53). Identificar no ato falho uma intenção é decorrente de uma aparência ilusória ou a uma exaltação poética? (pergunta feita por Freud).

Freud não responde a essa pergunta na sequência, e convida a alguns exemplos de lapsos verbais:

Primeiramente, os lapsos “evidentes” em que é dito o contrário. Exemplo: na abertura de uma sessão, o presidente diz: “declaro encerrada a sessão”, onde claramente era pra ter dito: “declaro aberta a sessão”. Qual o sentido do ato falho? Claramente encerrar a sessão.

Numa segunda categoria, não produz o oposto, mas pode comunicar o contrário do pretendido: “não estou adequado a louvar os méritos de meu sucessor”[geeignet] para “não estou inclinado [geneigt] a louvar os méritos de meu antecessor” (p. 53).

Em terceiro temos um lapso verbal que acrescenta outro sentido àquele pretendido: a esposa que diz sobre o marido: “ele pode comer e beber o que eu quiser”.

Na sequência, os casos de “interferência” em que existe uma combinação de sons e/ou palavras. Exemplo: draut = traurig (triste) + dauert (dura) : “isso draut ainda um mês, talvez”, no lugar de “isso dauert ainda um mês talvez”. (fiz a mistura tosca do português com o alemão para facilitar a localização da interferência).

Essas deformações de nomes nem sempre ocorrem por interferência, o que caracteriza um ato falho, mas também pode ocorrer sob forma de chiste (p. 56), como exemplo, Freud traz o nome do presidente da República da França, Poincaré, que foi transformado em Schweinskarré (costeleta de porco). É necessário saber se tais interferências são propositais, como no chiste ou se de fato ocorreu um lapso verbal.

Após apresentar esses formas e exemplos, é possível concluir que “eles não são obras do acaso, mas atos psíquicos sérios; possuem um sentido e nascem da conjunção – ou melhor, do confronto de duas intenções diferentes” (p. 58). E daí aparece outra pergunta: que intenções são capazes de perturbar as pessoas dessa maneira?

Freud deixa claro que esse lapso verbal acontece independente do estado do sujeito, não é decorrente de cansaço ou coisa assim, ele é “igualmente possível em um estado de saúde perfeito e de pleno bem-estar”. (p. 60)

A Psicanálise nunca falha?

Um ponto de crítica à Psicanálise está na ideia de que ela nunca erra, se a interpretação funcionou, funcionou, e se não funcionou, é resistência, ou seja funcionou de novo (crítica muito bem fundamentada por Popper)…

Voltemos a Freud… (por isso a importância da noção de inconsciente ético é tão importante).

Freud, na página 63, traz esse cenário, em que ao expor suas ideias a plateia levantaria sua resistência, e três páginas a frente que inclusive poderia ser acusado de autoritário com as decisão frente ao ato falho do outro. E, para sair desse lugar, se questiona “de onde extrair os fundamentos para nossas interpretações” (p. 67) e apresenta os princípios gerais da interpretação:

“Em regra, procedemos de modo a formular nossa interpretação do ato falho a partir de princípios gerais, uma interpretação que será, de início, apenas uma conjectura, uma sugestão de interpretação, para a qual, a seguir, buscamos a confirmação no exame da situação psíquica. Por vezes, precisamos esperar por acontecimentos futuros, anunciados, por assim dizer, pelo próprio ato falho, a fim de obter a confirmação de nossa hipótese” (p. 68)

Os atos falhos (conclusão)

Os atos falhos tem um sentido e se apresentam de diferentes formas: verbal, de escrita, esquecimento de nomes, etc… E, por sentido “entendemos significado, intenção, tendência e posicionamento numa série de nexos psíquicos” e também que “os atos falhos são atos psíquicos e surgem da interferência mútua de duas intenções” (idem) e por fim “eles resultam da interferência mútua de duas intenções diversas, das quais uma é a que sofreu perturbação, ao passo que a outra é perturbadora” (idem). As que sofrem perturbação não nos interessam tanto, mas as perturbadoras, sim.

Freud pensa em uma série de exemplos para ilustrar as afirmações acima, e os divide em três grupos distintos: na primeira, a tendência perturbadora, conhecida de quem fala, e foi sentida por ele antes do lapso verbal (declaro a sessão encerrada); no segundo grupo o falante reconhece como sua a tendência perturbadora, mas não sabe que antes do lapso ela se encontrava nele. E no terceiro grupo, a interpretação dada à intenção perturbadora é rechaçada com veemência pelo falante.

Qual o ponto comum entre elas?

“O falante se decidiu a não transformá-la em palavras, e é então que ocorre o lapso verbal, ou seja, é então que a tendência rechaçada se converte, contra a vontade do falante, em manifestação, na medida em que modifica a expressão da intenção por ele aprovada e se mistura a ela ou toma diretamente seu lugar. Esse é, portanto, o mecanismo do lapso verbal”. (p. 87)

E acrescente mais abaixo: “a repressão de dizer algo é condição imprescindível para que o lapso verbal ocorra” (idem).

Mas por que não explicar de forma mais simples, pergunta Freud, e simplesmente a tendência não ganhasse expressão e conclui: “os atos falhos, no entanto são soluções de compromisso; para cada uma das duas intenções, eles significam a um só tempo sucesso e insucesso parciais” (p.88).

Com essa ideia, Freud aponta aspectos em nosso funcionamento psíquico que contradizem concepções da vida comum e da psicologia, afinal: “o seu humano abriga tendências capazes de entrar em ação sem que ele saiba da existência delas” (p. 100).

S. Freud – Conferências introdutórias à Psicanálise (1917

 

Saulo Durso Ferreira

Psicólogo CRP:06/88338

Psicanalista, Mestre em Psicologia pela PUCCAMP

Professor e Supervisor Clínico