Deem-me o supérfluo, que eu abro mão do indispensável: Oscar Wilde

Deformação Psicanalítica , 27/05/2020

Deformação Psicanalítica: Freud

O que nos interessa está na fenda, no pedaço que falta, na parte que está oculta. O interesse não está no nu, está na roupa com rasgo, no decote que mostra o real; assim como o corpo morto codificado pelo significante e que uma parte escapa. Do corpo superfície pura de gozo – que seria a própria morte – ao corpo falado, coberto pela linguagem e as partes que ficam de fora da codificação, configurando as zonas erógenas… o que no corpo todo seria um curto circuito mortal, agora circunscrito revela uma parte de prazer/desprazer que atrai para seus litorais de encontro do real com o simbólico:

“Lacan afirma que o corpo, na neurose, é essencialmente morto. É inscrito por significantes; em outras palavras, foi sobrescrito ou codificado pelo simbólico. O corpo como organismo biológico é aquilo que Lacan chama de “o real”, e é progressivamente socializado ou “domesticado”, a tal ponto que a libido se retira de todas as zonas, com a exceção de um pequeno número delas: as zonas erógenas. Somente nessas zonas o corpo continua vivo, em certo sentido, ou real. Nelas, a libido (ou gozo) é canalizada e contida. Não é o que acontece na psicose: a hierarquia das pulsões que é obtida imaginariamente pode desabar quando a ordem imaginária que a sustenta vacila. O corpo, que em sua maior parte fora libertado do gozo, é subitamente inundado por ele, invadido por ele. E o gozo volta violentamente, diríamos, porque é bem possível que o psicótico o vivencie como um ataque, uma invasão ou um arrombamento. “ (Bruce Fink, 2018 – p. 101)

Para não ficar difícil é só pensar no calcanhar de Aquiles. O calcanhar, a única parte que não é banhada, é justamente seu ponto mais sensível. É o calcanhar que interessa à Psicanálise. A pequena parte de um todo; o resto, aquilo que o sujeito não comeu, ou que roeu e deixou os ossos no prato… queremos os ossos! A Psicanálise quer o que mais ninguém quer… nos deliciamos com a pequena parte. No final das intenções, a pulsão é parcial. Ponto em que neuróticos criticam perversos, mas que em seu íntimo fazem o mesmo tipo de escolha, afinal o primeiro é o negativo do segundo.

O resto na clínica está na frase que o sujeito desiste de dizer, ou na palavra dita de forma menos enfática, no murmúrio, na única tosse da sessão, no detalhe, Deus esta lá, ou o Diabo está lá. Ou melhor, Deus, Diabo e Psicanálise estão nos detalhes. Tudo começou com os sonhos e a dificuldade de lembrar certo pontos, que  interessaram a Freud, e dali partiu para tantas outras coisas ditas, pensadas e feitas pelo sujeito… os chamados “atos falhos”. Nas “Conferências Introdutórias” (1916/1917) – nosso livro de estudo nessa série do Deformação Psicanalítica -, Freud aborda os atos falhos, e chama a atenção para algo que não chamaria a atenção por não ter vida sozinho, o prefixo alemão “ver”, que não tem significado próprio, mas que forma algumas das expressões fundamentais do claudicar de nossos atos, pensamentos e linguagem:

Ver/sprechen: Lapso verbal

Ver/lesen: Lapso de leitura

Ver/horen: Lapso de audição

Ver/gessen: Lapso de memória

Ver/legen: Extravio

(p. 32, 33)

O que eram restos para outras áreas do saber, para a Psicanálise se revelou o grande banquete. Como se a Psicanálise utilizasse a frase de Oscar Wilde: “Deem-me o supérfluo, que eu abro mão do indispensável”. Freud inclusive supõe o julgamento dos que o ouviam a respeito disso:  (…) parece mesmo um capricho desperdiçar trabalho e interesse em semelhantes ninharias, (p. 33) e ao mesmo tempo afirma:

“É verdade que a psicanálise não pode se gabar de jamais ter se ocupado de ninharias. Ao contrário, geralmente constituem objeto de seu exame aqueles eventos modestos, descartados pelas de- mais ciências como demasiado insignificantes — o refugo, por assim dizer, do mundo dos fenômenos. Em sua crítica, porém, não confundem os senhores a grandeza dos problemas com a notoriedade dos indícios? Não há coisas muito importantes que, sob certas circunstâncias e em determinados momentos, só são capazes de se revelar mediante indícios muito fracos? Seria fácil para mim mencionar aqui diversas situações desse tipo. A partir de que insignificantes indícios os senhores, ou os jovens dentre os senhores, deduzem ter ganhado a afeição de uma dama? Aguardam para tanto uma expressa declaração de amor, um abraço apaixonado, ou será que não lhes basta um olhar quase imperceptível aos outros, um movimento fugaz, o prolongamento por um segundo de um aperto de mão? E se, como policiais, os senhores participassem da investigação de um homicídio, esperariam de fato descobrir que o assassino deixou uma fotografia com endereço na cena do crime? Não precisariam se dar por satisfeitos com pistas mais fracas e menos óbvias da pessoa que procuram? Não subestimemos, pois, os pequenos indícios; a partir deles, talvez seja possível encontrar a pista de coisa maior. “ (p. 34)

No fim, parece que as pequenas coisas que levam às grandes coisas. A roupa que cobre o nu estimula a fantasia, o sujeito pode inventar o que bem quiser ali… na verdade é uma invenção que não passa pela sua vontade consciente, é na invenção, é no improviso que algo se revela. O ato falho, como fragmento arqueológico, e que é interrogado pelo analista, se desdobra revelando que ele tem um sentido: esquecemos, trocamos palavras; perdemos coisas, etc, não por cansaço, ou falta de atenção; mas por desejo. Mas que desejo é esse? 

Ainda não sabemos, mas já é possível adiantar que o desejo, em Psicanálise, respeita a afirmação de Oscar Wilder: “posso resistir a tudo, exceto à tentação”.

Prof. Me. Saulo Durso Ferreira

Psicanalista, Mestre em Psicologia pela PUCCAMP

Professor e Supervisor Clínico

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