Deformação Psicanalítica: Freud, o gênio do papo furado

Deformação Psicanalítica , 06/05/2020

Deformação Freud – O ato falho: Aula 1: (06 de maio de 2020)

O eu não é o senhor em sua própria casa. Essa é uma afirmação freudiana que localiza a Psicanálise em meio a tantas áreas do saber, principalmente dentro de uma tradição cartesiana do “cogito ergo sun”. Descartes comprovou com seu método que: se é possível duvidar da existência de todas as coisas, inclusive da própria existência, então é possível afirmar a existência de que alguém duvida – penso, logo, existo. A consciência de si passa a ser um índice da verdade da existência do sujeito e os atos intencionais conscientes a medida da realidade.  

Desde de os Estudos sobre Histeria, Freud (inicialmente com Breuer) começa a constatar que uma outra cena é o lugar de origem e atuação da histeria. Como se num outro lugar da pessoa (paciente) algo acontecia e o médico só tinha condições de enxergar o que escapava para o plano da percepção consciente imediata. O que escapava era ignorado pelos médicos, e justamente o que foi descartado pelos outros, merda pra uns, foi adubo para Freud. Na “Interpretação dos sonhos”, Freud se aprofunda ainda mais nessa sobra, e “descobre” que elas funcionam como uma via de acesso a esta outra cena, que aparece na sua forma mais escancarada nos sonhos. Escancarado enquanto sonho, mas ao despertar o que sobra é quase nada, mas para a Psicanálise o “quase nada” é o “tudo”. De acordo com Freud, esses tropeços, esses restos, são para a Psicanálise suas “Sagradas Escrituras” (Freud, S. – Interpretação dos sonhos: Cap. 7).

Cada vez mais além nessa ideia, Freud escreve “Psicopatologia da vida cotidiana” e “O chiste”, com esse último contendo duas curiosidade: 1- ele foi escrito paralelamente aos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” – um livro em cada escrivaninha: o real do sexo amortecido por ditos espirituosos e 2 – mostrar que compõe o nosso mais íntimo é formado por uma piada.

Freud escancarou o sexual e o risível do humano, e as gerações futuras fizeram e fazem esforço para tornar a calar o que ele escancarou. Freud apareceu como um ato falho nas áreas dos saberes, e como todo ato falho, com sua estrutura de furo, ele faz com que se fale e fale mais em torno de seu furo. Os que se fascinam e falam bem, e os que odeiam e falam mal – de tempos em tempos sempre aparece um livro dedicado a destruir a Psicanálise. Mas parece que aqui, literalmente temos: falem bem, falem mal, mas falem do ato falho.

Conferências introdutórias à Psicanálise (1916-17)

 

A Psicanálise é um procedimento de tratamento para doentes dos nervos, com um método que exige muito esforço por parte do analisando e que não podemos garantir o sucesso do processo. Além de tudo existem as dificuldades relacionadas ao ensino da Psicanálise, “no tratamento psicanalítico não ocorrem senão trocas de palavras entre o analisando e o médico” (Freud, S. – Conferências Introdutórias – p. 22). Com uma afirmação dessas só podemos esperar mais críticas, do tipo: “como se pode fazer alguma coisa contra a doença apenas com palavras (idem)”. Essa afirmação tem mais de 100 anos, imagine hoje, com tantas máquinas, tecnologias, novos métodos e medicamentos, o psicanalista ali ainda com suas palavras… Psicanálise é um papo furado? Perfeito. Uma conversa com furo no meio, o lapso, a palavra que falta…

Para Freud, as palavras tem muitas implicações:

“Em sua origem, as palavras eram magia, e ainda hoje a palavra conserva muito de seu velho poder mágico. Com palavras, uma pessoa é capaz de fazer outra feliz ou de levá-la ao desespero; é com palavras que o professor transmite seu conhecimento aos alunos e é também por intermédio das palavras que o orador arrebata a assembléia de ouvintes e influi sobre os juízos e as decisões de cada um deles. Palavras evocam afetos e constituem o meio universal de que se valem as pessoas para influenciar umas às outras. Não vamos, pois, subestimar o emprego das palavras na psicoterapia, e sim nos dar por satisfeitos se pudermos ser ouvintes daquelas palavras que são trocadas entre o analista e seu paciente” (p. 22).

Palavras evocam afetos e constituem o meio universal de que se valem as pessoas para influenciar umas às outras. Não vamos, pois, subestimar o emprego das palavras na psicoterapia, e sim nos dar por satisfeitos se pudermos ser ouvintes daquelas palavras que são trocadas entre o analista e seu paciente” (p. 22).

Mas as palavras em análise só tem seu valor por um vínculo, “uma particular ligação emocional com o médico” (p. 23), a transferência. A pessoa somente endereça suas palavras para alguém que julga ter condições de escutá-la, o analista. No papo furado, na falta de um saber da pessoa sobre sobre si, que ela busca o analista – para buscar o saber que falta: o analista completa o sintoma, pois é ele que se interessa no preenchimento do saber que falta, “essa é a lacuna que a psicanálise busca preencher” (p. 27). Veja bem, não é que preenche, mas o que se interessa e promove no analisando o desejo de saber, de responder ao furo do seu papo.

Para a Psicanálise, esse furo e sua força na produção de “papo”ao redor dele, é um saber construído sessão após sessão, um saber que a pessoa sabe, só não sabe que sabe; e o desejo do analista na lacuna mantém a caminhada do analisando na busca do saber de si.  Apesar de uma bonita descrição, a coisa não acontece de forma tão fácil assim, afinal o inconsciente é muito mais que um pequeno furo na consciência. Se pudessem ser medidos em termos de tamanho, a consciência seria minúscula perto do inconsciente, e isso ” ofende o mundo inteiro (…) os processos psíquicos são, em si, inconscientes, e que os conscientes são meros atos isolados (…) a definição do psíquicos, para a psicanálise, é de que ele se compõe de processos tais como sentir, pensar e querer, e ela tem de postular a existência de um pensar inconsciente e de um querer insciente. (p. 28).

E o que possibilita essa estrutura descrita acima? E aqui Freud apresenta outra “ofensa”ao mundo, e apresenta a relação que existe entre a primeira parte desse texto com uma segunda, que os impulsos impulsos sexuais desempenham um papel “extraordinariamente grande (…) como causadores de doenças dos nervos e da mente”, e, para causa ainda mais ofensa, “esses mesmos impulsos sexuais contribuíram em não pouca medida para as mais elevadas criações culturais, artísticas e sociais do espírito humano” (p. 29).

Como isso ocorre? Esses impulsos sexuais são sublimados – e a sublimação é a passagem do estado sólido para o gasoso, sem passar pelo líquido – os impulsos sexuais não passam por sua realização sexual em ato e passam direto para “metas socialmente mais elevadas, não mais sexuais” (p. 30), no entanto “(…) a domesticação dos impulsos sexuais é precária (…) o perigo de que seus impulsos sexuais se neguem a tal emprego (…) a sociedade não crê em ameaça maior à cultura do que aquele que viria da libertação dos seus impulsos sexuais (…) ela (sociedade) não gosta de ser lembrada, portanto, de seus fundamentos (…) (idem).

E é isso que escapa em nossos atos falhos, é isso que Freud, com a Psicanálise trouxe ao mundo. Isso foi o genial em Freud, não porque descobriu isso ou aquilo, até porque muito do que ele falou já tinha sido falado, seu grande trabalho foi articular esses saberes e sustentar, ano após ano o que disse.

Saulo Durso Ferreira

Psicólogo CRP:06/88338

Psicanalista, Mestre em Psicologia pela PUCCAMP

Professor e Supervisor Clínico