Deformação Psicanalítica – O “não” como forma de revelar o que é

Deformação Psicanalítica , 20/05/2020

Deformação Lacaniana (Capítulo 5, partes 2 e 3)

O sujeito que não faz análise pois “se conhece bem” ou que diz: “faço auto-análise pensando comigo mesmo”, ou ainda, como já escutei de um analisando: “Acho que vou ficar em casa, deitar no sofá e falar com a parede” – mas nesse caso veio a conclusão de que ele não supõe que a parede tenha condições de escutá-lo. Três situações de uma análise impossível – se conhecer bem; analisar os próprio pensamentos  e falar com as paredes. Mesmo equivocadas, caso eu tivesse que escolher uma, ficaria com a última, pois essa é a única que envolve “falar”, afinal é “falando que se falha”. É falando que podemos nos surpreender com nossos pensamentos em suas formas entrecruzadas por suas palavras… uma palavra leva à outra,  independente da vontade consciente do sujeito – a autonomia da palavra em sua estrutura antitética: não é por acaso que na voz de prisão o sujeito tem o direito de permanecer calado, pois ao falar poderia produzir provas contra si mesmo.

“É precisamente com essas ambiguidades, com essas riquezas implicadas desde agora no sistema simbólico tal como foi constituído pela tradição na qual nos inserimos como indivíduos, bem mais do que soletramos e o aprendemos, é com essas funções que joga a experiência analítica. A todo instante essa experiencia consiste em mostrar ao sujeito que ele diz mais do que pensa dizer – para não tomar a questão senão por esse ângulo.” (Lacan, p. 68)

Na parte 2 do Capítulo 5, Lacan deixa claro que pretende introduzir o problema do ego e da palavra (…) da maneira através da qual se revela na nossa experiência” (Lacan, p. 69). O ego é algo que Freud opôs ao “isso”, e com seu texto “A negação” revela a forma como a palavra e o ego se diferenciam na situação analítica, a afirmação falada pelo sujeito e as palavras que negam essa afirmação, assim como a negação intencional falada pelo sujeito e que revela a afirmativa, mais uma vez é possível afirmar  “o sujeito diz mais do que pensa dizer” (p. 61).

Como essa exposição, Lacan aponta que a direção do analista na análise está na palavra falada do analisando, e é isso que acontece com o sujeito quando “aprende” a fazer análise, sai desse lugar de que sabe o que pensa e entra na experiencia de se surpreender com o que diz. Temos aqui uma mudança do lugar do ego na Psicanálise, um lugar de engano, ponto de cegueira do sujeito – mas que ele pensa que é sua luz, talvez por isso podemos comparar à cegueira branca de Saramago – o sujeito crê tanto no que sabe que está cego. O que não coincide com as propostas da Psicologia do ego ou da Escola das relações objetais com seu “esfrega-esfrega afetivo” (p. 70), uma forma de cativar o analisando num lugar de sugestão (p. 71), em que as fantasias de infância são tomadas como experiências que efetivamente ocorreram ou não,    e a análise como lugar de reparação do que “faltou”  na história do sujeito.

A denegação (Verneinung)

Nesse texto, Freud abre com a ideia de que ao utilizar uma expressão que nega algo, devemos desconsiderar o “não” da frase e considerar o que sobra, ou seja, a afirmativa da questão – e o Psicanalista se pergunta: “se não é isto, por que precisa dizer que não é isto?”. Assim:

“O modo como nossos pacientes apresentam suas ideias espontâneas, no trabalho psicanalítico, nos fornece a oportunidade para algumas observações interessantes. “Você agora vai pensar que eu quero dizer algo ofensivo, mas não tenho de fato essa intenção.” Compreendemos que é a rejeição, através da projeção, de um pensamento que acabou de surgir. Ou: “Você pergunta quem pode ser esta pessoa no sonho. Minha mãe não é”. Corrigimos: então é a mãe. Tomamos a liberdade, na interpretação, de ignorar a negação e apenas extrair o conteúdo da ideia. É como se o paciente houvesse dito: “É certo que me ocorreu minha mãe, em relação a esta pessoa, mas não quero admitir esse pensamento”.  (Freud, p.250)

A ideia inconsciente pode chegar à consciência sob condição de ser negada, revelando inclusive como “a função intelectual se separa do processo afetivo” (p. 251), é aceito o aspecto intelectual do reprimido, mas o essencial não. Essa estrutura não aparece apenas quando o analisando diz livremente, mas também quando recebe a interpretação do psicanalista e “(…) Não há prova mais forte de que conseguimos desvelar o inconsciente do que o analisando reagir dizendo: “Não pensei isso” ou “Nisso eu não (nunca) pensei” (p. 254). É na tentativa de ocultar – dentro da situação transferencial – que o conteúdo se revela, ou ao menos seu lugar é indicado.

Freud, S. – A negação (1925): Obras Completas, Volume 16

Lacan, J. – Seminário 1

Prof. Me. Saulo Durso Ferreira

Psicólogo CRP: 06/88338

Psicanalista, Mestre em Psicologia pela PUCCAMP

Professor e Supervisor Clínica

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