Lacan do Zero: Aula 3 – O corpo real e o corpo falado

Deformação Psicanalítica , 08/11/2018

Assim como as necessidades indizíveis passam pelo banho de linguagem, o corpo em psicanálise é falado por um Outro. Esse corpo vai recebendo nome de suas partes e também de seu funcionamento, “o corpo está à mercê da linguagem, à mercê da ordem simbólica”. P. 28

Fink  exemplifica com o paciente que sente o apêndice no lado errado, dito por sua esposa, o sujeito procurou o médico e lá se sente um bobo, quando é informado que o apêndice se encontra do outro lado.

Freud foi aquele que deu ouvidos ao corpo das histéricas, não ao corpo físico como os outros médicos, mas ao corpo nomeado dentro da estrutura das suas fantasias. Ao assistir a apresentação de casos feitas por Charcot, Freud constatou que as pacientes histéricas nada sofriam no corpo físico, e que também não se tratava de fingimento, como pensavam os médicos em geral, mas sim que esse corpo sofria dentro de um enredo, dentro de uma história recheada de fantasias inconscientes das pacientes.

A paralisia nas pernas de uma de suas pacientes pôde ser explicada como uma forma de se proteger de um desejo que seria insuportável para ela: com a morte da irmã seu amado cunhado estaria livre, e para não “correr atrás dele” a paralisia lhe serviu como proteção de seu desejo.  

Assim, em psicanálise, eu não escuto o corpo biológico, não que ele seja negado, mas minhas intervenções estão no corpo da fantasia, ou fantasmático.

Uma paciente diagnosticada com anorexia me procurou e com o tempo pôde chegar em análise na questão de que tentava preservar um corpo infantil sem curvas que atestariam contra o fim da infância e a perda do lugar de “menininha do papai”.

Por fim, de forma didática e divertida, trago a “Chiquinha” como exemplo final. Quando leva uma bronca de ser pai, Seu Madruga, Chiquinha além de chorar passa a mão sobre sem bumbum, como se tivesse levado um tapa. Uma dor no corpo, que sequer foi tocado naquele momento.

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