Lacan do Zero: Aula 4 – Real e Realidade

Deformação Psicanalítica , 12/11/2018

Enquanto o imaginário funciona como lugar de certeza,  do sentido pleno, o simbólico o lugar do duplo sentido, o real é ausência de sentido, o inominável, o impossível, etc. O real é tudo aquilo que não é imaginário e simbólico, por isso seu tamanho é impossível calcular. Antes do nome ele está lá, e no limite da linguagem estará lá mais uma vez.

Perceba que, apesar de ter sido dito que o real aparece na fissura do espelho, ele é anterior ao espelho, anterior à palavra, o sem nome só pode ser percebido após um nome ser dado, o silêncio só pode ser percebido depois do som, e, como pensado pela Psicanalista Gabriela Cardozo, a criança,a pesar de nascer sem dentes, só será percebida como banguela quando nascer o primeiro dente.

De acordo com Lacan, a existência é produto da linguagem, e desta forma, o real por não ter nome não existe, porém insiste em ser nomeado. Imagine um tabu que ninguém fala sobre ele, e justamente por ninguém nomear parece atrair nomeações, assim como ocorre no trauma. Por isso podemos considerar que o real não existe mas ex-siste.

Se deparar com o real é se deparar com a angústia! Um sofrimento sem nome, sem representação, angústia em estado bruto. Veja o trecho do filme  sobre Nise da Silveira o momento de ciúme de um sujeito que não o pode nomear, e veja o sofrimento na sua forma real, inimaginável e indizível.

O real é o passado, antes da linguagem, e o futuro, o final da linguagem, para além dos limites imaginários. Por mais que nomeamos uma coisa, possibilitando assim sua existência, sempre algo escapará, algo sempre resiste a nomeações e significações, o real insiste.

Pouco a pouco esse real vai sendo nomeado e colocado em estruturas imaginárias, criando assim uma amarração simbólico/imaginária do real, a esta amarração chamaremos “realidade”. De maneira a privilegiar a didática à profundidade, podemos dizer que a realidade é o real nomeado.

A realidade é possibilitada com a aplicação dos significantes naquilo que até então não tinha nome (o simbólico nomeando o real), e esta nomeação é feita a partir dos significantes disponíveis dentro de uma comunidade (família inclusive). S/R e o que sobra disso? R! Lembrando, o real é o início e o fim.

O que não puder ser dito na linguagem não é parte da realidade desse grupo, não existindo.

Enquanto a realidade existe, o real ex-siste. E o analista intervém onde?

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