Lacan do Zero: Aula 4b – Onde o analista intervém?

Deformação Psicanalítica , 16/11/2018

No senso comum a realidade seria aquele aspecto da experiência humana que comporta o que realmente existe, aquele registro em qual todas as pessoas “saudáveis” compartilham das mesmas coisas. Quantas vezes, ao criticar a sanidade mental de alguém, não é utilizada a expressão: O sujeito está fora da realidade?
O grande manual DSM inclusive se presta a isso, afinal seu nome deixa claro: diagnóstico e estatístico. Mesmo uma grande corrente de analistas caminham por esta direção, pacientes desadaptados à realidade e que precisam ser levados a ela.
A realidade do analista é mais saudável que a do paciente? Ainda que este primeiro tenha feita uma “análise completa”, isso o autoriza a curar o outro pois foi curado numa realidade mais saudável?
Para Lacan, não. A realidade é um engano, algo muito próximo, para não dizer que se trata da mesma coisa, que a fantasia. O exemplo dado no texto anterior ilustra este caráter de engano que a realidade propõe: num velório, para as pessoas não lidarem diretamente com o inevitável e indizível da morte, o corpo morto é maquiado, arrumado para parecer estar dormindo, ou ao menos de que está em paz, e as pessoas que velam contam das histórias do falecido como forma de manter viva uma vida que não mais existe. Esse, aliás, é o mesmo mecanismo dos sonhos. O sonho apresenta nossos desejos de forma deformada, porém, se o sonho ficar Real demais nós acordamos, e acordamos para que possamos continuar sonhando. Acordo de um Real demais e me vejo mais uma vez imerso na minha realidade em que sou aquilo que mais me agrada.
Comumente pensa -se que o princípio da realidade é o que frustra o princípio do prazer, mas Lacan traz uma leitura muito interessante no Seminario 7, A Ética da Psicanálise, em que se baseia no trabalho de Freud “Projeto para uma psicologia científica”, mostrando que o princípio da realidade funciona para promover o adiamento do encontro com objeto, visto que o objeto por ser de caráter alucinatório jamais seria encontrado. Sendo assim, a realidade é um amortecedor, uma adiamento constante, do real.
A realidade é a nomeação do real, mas o Real, nunca se encaixa totalmente nesta ortopedia de coordenadas simbólico imaginárias. A realidade humana produz teorias para explicar todos os indizíveis a sua volta, como por exemplo o clima, mas nada impede de um evento vir com tamanha força e imprevisibilidade que destrua tudo a sua volta, um Tsunami por exemplo, destruindo uma cadeia de hotéis a beira mar ou um Titanic: Nem Deus afunda o Titanic,  isso foi dito, mas toda essa sapiência humana não pode deter a força do real de um iceberg.  Por essas e outras que a definição preferida que carrego sobre o Real foi dita por Lacan da maneira mais lúdica possivel: O Real é quando os pinos não encaixam nos buraquinhos.
Caso o analista intervenha na realidade do paciente estaria amarrando e nomeando com seus próprios significantes e, no fim da análise, o analisando teria a realidade cada vez mais próxima da realidade do analista. Por isso que Lacan criticava as escola que formam e dão diplomas dizendo: agora você é um psicanalista. Quando isso ocorreria? Quando o analisando e o estudante estivessem na mesma realidade compartilhada? Provavelmente.
Lacan aponta para a criatividade e autenticidade, e para isso o paciente precisará forjar a própria realidade, através da nomeação do real com seus próprios significantes, ainda que empregados de outros, mas configurados à sua maneira.
Como no poema de Drummond, musicado por Milton Nascimento na música: Canção amiga – aprendi novas palavras e tornei outras mais belas.
Por fim, uma recomendação de Lacan apontada por Jean Clavreul: O essencial era quando tinha um troço angustiante impossível de teorizar: era para lá que se tinha de ir.

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O essencial era quando tinha um troço angustiante impossível de teorizar: era para lá que se tinha de ir.