Lacan do Zero: Aula 5 – O nó do amor, do ódio e da ignorância

Deformação Psicanalítica , 19/11/2018

Agora que passamos pelos três conceitos, imaginário, simbólico e real, vamos reuní-los e dar um nó neles, o que Lacan chamou de “Nó Borromeano”. Este nome Lacan tirou do brasão da família “Borromeo”, são três argolas que uma depende da outra para sua sustentação, caso se tire uma das argolas as outras duas se soltará também, desta forma, ao tratarmos do Nó Borromeano sabemos que seu mínimo é três, ou seja, a clínica lacaniana é composta SEMPRE pelos três registros, o raciocínio clínico deve passar por aí, a queixa do sujeito deve ser localizada no centro de intersecção das argolas.

O nó borromeano é para Lacan uma construção, e, como tal, uma escrita que suporta um real, enquanto ex-sistência. O real está fora até o momento em que um corpo vivo é marcado pelo significante. A partir daí, o real se inscreve na estrutura como aquilo que faz buraco. É nesse sentido que podemos dizer que o real, apesar de resistir a qualquer simbolização e, justamente por isso, apagar todo o sentido, comparece no simbólico, sob a forma de falta de um significante – o significante do Outro sexo -, e no imaginário, como ausência de um saber sobre a espécie (furo real no imaginário). A única via de o real se inscrever na estrutura é através dos efeitos de sua própria impossibilidade. O real é o que ex-siste assim como o simbólico é o que insiste e o imaginário é o que faz consistência. (Coutinho Jorge, p. 31)

A realidade é constituída por uma trama simbólico-imaginária, feita portanto de palavras e de imagens, ao passo que o real é precisamente aquilo que não pode ser representado por palavras nem por imagens: ao real falta representação psíquica.

Não há realidade material absoluta, comum a todos os sujeitos, mas sim uma realidade psíquica singular. Para a neurose, a fantasia é o que constitui a realidade, ou seja, a fantasia é o que vai operar como uma matriz psíquica a partir da qual o sujeito se relaciona com os semelhantes e com o mundo. Para a psicose, o delírio é uma estrutura de linguagem que tenta colmatar a falha, o hiato deixado em aberto pelo fracasso do recalque originário. O real é precisamente esse furo que se revela diretamente na psicose e indiretamente na neurose.

O real é da ordem do não-sentido ou não senso radical. Lacan dirá que ele é o sentido em branco, a ausência de sentido, ou até mesmo “impensável”. O simbólico é do campo do duplo sentido. Nele o equívoco e o mal-entendido formigam. O imaginário é o sentido unívoco. Tais definições permitem ver que o imaginário e real são, propriamente, um o avesso do outro, enquanto o simbólico é uma verdadeira tentativa de articulação entre o real e o imaginário.

Exemplo:

O amor está situado na junção entre o simbólico e o imaginário. No amor, portanto, o real está elidido, o amor não admite a perda, a separação, “o amor é forte, é como a morte” e “as suas brasas, são brasas de fogo” que “as águas não poderiam apagar”.

O ódio está na junção entre o real e o imaginário. Nele falta o simbólico, ou seja, falta a palavra em sua função de mediação. No ódio, o embate entre o sentido e o não-sentido é mortífero, nele os tratados são rompidos, os pactos rasgados, surge a guerra; a diferença se torna incompatível, já que o simbólico não pode assegurá-la. Ingressamos no regime de “ou um” “ou outro” (p. 36).

A ignorância está na junção entre o real e o simbólico. Nela o imaginário está elidido, inviabilizando a produção de sentido. Na ignorância resta e insiste uma interrogação.

Biografia: Lacan, o grande freudiano – Coutinho Jorge, M.A.

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O amor está situado na junção entre o simbólico e o imaginário. No amor, portanto, o real está elidido, o amor não admite a perda, a separação, “o amor é forte, é como a morte” e “as suas brasas, são brasas de fogo” que “as águas não poderiam apagar”.