Lacan do Zero: Aula 6A – Alienação e separação “A bolsa ou a vida?”

Deformação Psicanalítica , 22/11/2018

Alienação e separação – Parte 1: A bolsa ou a vida?

 

A criança que chega ao mundo se depara com o Outro e sua linguagem, e neste encontro a desvantagem está do lado da criança, de acordo com Lacan, a criança precisará se assujeitar ao Outro para que possa existir. Lembre-se do enunciado: a existência é um produto da linguagem, ou seja, a criança “trocará” o real do seu corpo pelo significante do Outro, e assim passará a existir como um significante da cadeia dos significantes do desejo do Outro. Assim, teremos:

 

 Outro

criança

 

Ou ainda: A criança, advindo na forma de um sujeito dividido, desaparece debaixo ou atrás do significante, S.

 

 S

 $

 

Quando a criança triunfa sobre o Outro, temos as condições para a Psicose, ao não querer se assujeitar ao Outro como linguagem. Contudo, em sua derrota ela não perderá tudo, para ilustrar isso Lacan usa o exemplo do “a bolsa ou a vida”. Em um assalto o bandido diz: prefere entregar a bolsa ou prefere morrer? Aquele que preferir morrer perderá tudo, primeiro será morto e na sequência a bolsa será levada. Aquele que preferir entregar a bolsa perderá algo valoroso para si, mas em troca poderá sobreviver: tendo escolhido a sujeição a linguagem, como tendo concordado em expressar suas necessidades através de um meio distorcido ou camisa-de-força da linguagem e como tendo permitido ser representado por palavras.

A criança que era um “nada” por ser da ordem do real, passará a preencher um lugar dentro da falta do outro, “enquanto a alienação é o primeiro passo imprescindível para ascender a subjetividade, esse passo envolve escolher o próprio desaparecimento” (p. 74). Ou ainda: “é o próprio sujeito que não está lá no começo” (idem).

Para facilitar, imagine que ao nascer somos um livro, temos alguma essência, somos algo? Agora imagine este livro numa biblioteca, por mais que ele tenha um nome, tipo o livro “O sujeito lacaniano”, para que ele exista na biblioteca ele precisará ser adequado aos referenciais de armazenamento da biblioteca. Não vamos na biblioteca e procuramos um livro pelo nome, nós vamos ao catálogo (um sistema simbólico, de coordenadas) e lá achamos as indicações, por exemplo: PPEF-3A. O livro desaparece enquanto “O sujeito lacaniano” para existir como PPEF-3A. Da mesma forma, a criança desaparece para existir como um marcador nas coordenadas simbólicas dos desejos dos pais.

Se nós existimos significa que o desejo do Outro existiu, pode ser um desejo de amor, de ódio, de vingança, etc. Mesmo numa gravidez indesejada, se a criança sobrevive e alguém a cria foi porque nesta pessoa havia uma falta que coube essa criança.

Em Psicanálise é dito que o bebê é o “falo” da mãe, “falo” sendo aquilo que preenche uma falta e que simboliza a potência (e ao mesmo tempo a impotência decorrente do medo de perder). A mulher faltante, quando engravida, preenche essa falta com seu bebê. Aqui vale a pena trazer um termo da teoria de Winnicott chamado “preocupação materna primária”. Ele chamará por este nome o estado emocional que uma mulher saudável entra por volta do 6 mês de gestação e que dura alguns meses após o nascimento, em que a mulher “adoece” da gravidez, só fala do bebê, só fala da barriga, mostrando orgulhosa sua barriga e depois seu pequeno nos braços ou no carrinho, e ainda conclui: “só não é uma psicose porque há um bebê ali”. (Winnicott, Da pediatria a Psicanálise, p. 401)

Quando nada nos falta o funcionamento é psicótico, mas isso será assunto futuro.

E quando nada falta a uma mulher e ela engravida? Entra neste estado?

Fink, B. – O sujeito lacaniano

Winnicott, D. W. – Da pediatria a Psicanálise

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