Lacan do Zero: Aula 6B – A falta da falta e a sobreposição das faltas

Deformação Psicanalítica , 26/11/2018

Como vimos no último texto, a criança que chega ao mundo “troca” o seu real do corpo e de suas necessidades indizíveis, por um lugar na cadeia significante do Outro materno. Desta forma ele migra de um lugar de “nada” (pois a existência é decorrente da linguagem) para um lugar de falta no campo do Outro. O bebê, por preencher àquilo que falta à mulher, para a ser seu falo. Aliás, este é o primeiro tempo do Édipo na leitura lacaniana, o bebê É o falo.

Contudo, se tudo der certo, aos poucos o bebê começará a perder esse lugar de falo, mostrando-se insuficiente para preencher a falta no Outro materno, claro que para isso devemos considerar uma mãe suficientemente boa. A insuficiência do bebê em ocupar este lugar de falo materno levará a possibilidade da mãe mostrar seu desejo por uma outra coisa que não o bebê, e esta hiância será vivida como uma ruptura, uma ferida narcísica, que por um lado é dolorido, mas que por outro abre a possibilidade para a criança começar a trilhar rumo a estrada de forjar seu próprio desejo. Lacan chama atenção para quando essa falta não é apresentada, ou seja, a falta falta:

O que provoca a ansiedade? Ao contrário do que dizem as pessoas, não é nem o ritmo nem a alternância da presença ausência da mãe. O que provoca isso é que a criança delicia-se em repetir os jogos de presença-ausência: a segurança da presença é encontrada na possibilidade da ausência. O que mais causa ansiedade na criança é quando a relação através da qual ela vem a ser – baseada na falta que a faz desejar – é mais perturbada: quando não há nenhuma possibilidade de falta, quando a mãe está constantemente antecipando suas necessidades. (Lacan, Seminário 10)

Acima apresentei a falta da falta, mas o que é a sobreposição de faltas? A sobreposição ocorre quando o Outro materno apresenta seu desejo por uma outra coisa que não a criança. lembre-se daquela regra apresentada nas primeiras lições. A criança sempre teve o olhar de desejo para ela e desta forma nunca precisou se haver com a falta, porém, esse Outro materno saudável com o tempo passará a desejar algo fora dessa relação. Imagine a cena, você é a criança e está sentado em um restaurante, na sua frente está o Outro materno, sempre te olhando, dai, um belo dia (ou triste dia?) ela olha para algo além de você. mas, faça de conta também, que é impossível virar o pescoço e ver para onde o olhar dela vai, desse seu lugar só será possível supor o que o Outro materno deseja, para onde ela olha? A criança então ficará atrás de pistas e mais pistas para tentar decifrar o enigma do Outro, o que ele deseja?

Seria como alguém terminar um relacionamento com você e não dizer o motivo, você ficará sondando, fuçando em facebook, instagram, para tentar encontrar uma pista, que é este outro por quem fui trocado?

Não raro de acontecer isso quando a mãe engravida de um segundo filho e ela (e a família) só fala do bebê que vai chegar, o pequeno, etc. O que acontece normalmente com esse filho mais velho? Regride. E nessa regressão supõe responder ao que o Outro materno deseja.

Aqui temos a sobreposição das faltas, que obviamente, na saúde, não vai durar, haverá desencontro.

Abrimos assim caminho para a introdução de um terceiro termo, assunto da próxima aula.

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