Lacan do Zero: Aula 7 – O Nome-do-Pai

Deformação Psicanalítica , 29/11/2018

O bebê é o falo da mãe, ou seja, o bebê é aquilo que preenche a falta na mulher e por ocupar o lugar daquilo que preenche a falta, funciona como falo. Desta forma o olhar do Outro materno está presente desde sempre para a criança, e este olhar, por nunca ter faltado, nem sua ausência nem sua presença pode ser percebida.

Na saúde e com o tempo, a mãe retomará seu interesse por outras coisas para além de seu bebê. Ela olha para além desta relação dual, apontando assim um lugar. A criança se depara neste momento com a falta do olhar, é até mais do que isso, o olhar para um outra coisa. Aquele ser que já foi um “nada”  da ordem do “real” e que depois teve a consciência de si numa imagem total de si mesmo “imaginária”, se depara agora com uma ruptura na imagem, retornando àquele real de si que um dia foi nada, e como agora tem bordas é percebido como falta.

Esse é o ponto que na aula anterior chamamos de sobreposição das faltas, a criança ao se deparar com o desejo da mãe se depara com a própria insuficiente, a própria falta e assim passa a desejar, mas não um desejo qualquer, ela sonda o desejo do Outro materno para desejar a mesma coisa e assim retornar ao lugar narcísico do início. Mas o que a mãe deseja?

É a hora da entrada do simbólico, a linguagem. Mas cuidado, não significa que as palavras não faziam parte da construção do sujeito, o que acontece na introdução do terceiro termo é a entrada de um “significante especial” que vai ser ponto de amarração de todos os outros significantes. Caso não exista este significante os demais ficarão à deriva, nunca fechando numa significação compartilhada. Podemos dizer que a linguagem neurótica é o idioma do nome-do-pai. Perceberam a força desse “nome”?

Muito mais do que a figura do pai ou a imago paterna, o nome é um nome, um destinatário do desejo da mãe. Freud chamou este destinatário de pai, mas não se trata só a figura paterna, cabe a qualquer um a quem o desejo materno se direcione, qualquer um que freie o desejo impetuoso materno:

O papel da mãe é o desejo da mãe. É capital. O desejo da mãe não é algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um grande crocodilo em cuja boca vocês estão- a mãe é isso. Não se sabe o que pode lhe dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da mãe é isso.

(…) há um rolo, de pedra, é claro, que la está em potência, no nível da bocarra, e  isso retém, isso emperra. É o que se chama falo. É o rolo que os põe a salvo se, de repente, aquilo se fecha (p. 105). – Lacan, Seminário 17.

O falo deixa de ser a criança e passa a ser algo em algum Outro, e  assim a criança se livra de uma angústia insuportável de não poder desejar. O desejo materno causador de angústia desaparecerá na barra abaixo do nome-do-pai, é o impronunciável significante do desejo do Outro materno passará a ter um nome, um significante, S.

Nome-do-Pai

Desejo da mãe

O desejo materno ficará como significante perdido, recalcado S1,  afinal reconhecê-lo implicaria em reconhecer a própria falta. O nome do pai figurará como S2, esse sim podendo ser dito, acusado, culpabilzado e  criança entrará na relação com o deslizamento dos significantes, caracterizando assim a estrutura metonímica do desejo, sempre por uma outra coisa, sempre desejo do desejo.

S2

S1

S2,S3,S4 S5.

Como diz Freud: A criança faz todas as perguntas, exceto uma, a que realmente importa, aquela que seria um S1. (Isso está no texto que Freud faz uma análise sobre Leonardo da Vinci)

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