Lacan do Zero – Aula 9 A : Objeto a e a Fantasia

Deformação Psicanalítica , 06/12/2018

“Na tentativa da criança compreender o que permanece essencialmente indecifrável no desejo do Outro – o que Lacan chama de X, o variável, ou o desconhecido – encontra-se o próprio desejo da criança – o desejo do Outro começa a funcionar como causa do desejo da criança” (Fink, p. 82)

O desejo do Outro, revelador de sua falta, aponta para a incompletude do sujeito, sua insuficiência constata que alguma coisa passou a faltar em si mesmo, na sua completude imaginária. Este pedaço que falta em si, ser a aquilo que o sujeito supostamente encontrará no outro, este objeto perdido de si mesmo aparecerá como uma parte de um Outro. O sujeito faltante que anda por aí em busca de si mesmo encontrará algo no outro, algo familiar e ao mesmo tempo estranho de si num outro, algo extimo – exterior e íntimo ao mesmo tempo. Esse é o objeto a, objeto que CAUSA o desejo.

Lacan foi aos poucos se aproximando desse objeto, que na verdade foi sua criação, objeto que já passou pela Das Ding freudiana, que já foi o objeto agalma de Sócrates e que finalmente aparecerá como objeto a.

E por que o objeto a causa o desejo? A resposta está na suposta completude que o sujeito retornaria caso o encontrasse, nas palavras de Fink:

“O objeto a pode ser entendido aqui como o resto produzido quando essa unidade hipotética se rompe, como um último indício daquela unidade  um último resto dessa unidade. Ao clivar-se desse resto, o sujeito dividido, embora excluído do Outro, pode sustentar a ilusão da totalidade; ao apegar-se ao objeto a, o sujeito é capaz de ignorar sua divisão. Isso é precisamente o que Lacan classifica como fantasia, é ele a formaliza com o materna $◇a, que deve ser lido: O sujeito dividido em relação ao objeto a. É na relação complexa do sujeito com o objeto a (relação de envolvimento-desenvolvimento-conjunção-disjunção, que o sujeito obtém  uma sensação fantasmática da completude, preenchimento, satisfação e bem estar” (p. 83)

No Seminário 7 Lacan ainda não havia chegado no objeto a, mas estava em seu caminho, é para auxiliar nessa rota, recorreu ao texto de projeto: Projeto para uma Psicologia científica, é neste pequeno texto de Freud, conseguiu delimitar um pensamento bem interessante (para conhecer de maneira aprofundada isso sugiro a leitura de Garcia Roza). Ali o princípio de prazer e de realidade não aparecem como contrários e sim complementares. Diante de uma necessidade e ocorrência de satisfação, o sujeito experiência, ainda que de maneira alucinatório, uma série de elementos estéticos e prazerosos deixará um traço de memória. Um circuito neural prazeroso ligado a um objeto. Numa nova situação de necessidade, o sujeito visará reencontrar tal objeto, no entanto tal objeto não existe empiricamente, e  sim fruto de uma ilusão, desta forma, para evitar o desprazer do desencontro, o princípio da realidade entrará na função de adiamento de encontro com o objeto, pois o encontro seria um desencontro.

O símbolo ◇, que apresenta o sinal da junção e da disjunção somados, representa está tentativa de exata medida do sujeito frente a esse objeto, como no exemplo dos porcos espinhos de Schopenhauer, perto demais se furam,  longe demais morrem de frio. Qual a distância exata?

Tenho a impressão que é isso que as pessoas procuram em uma análise, qual a distância exata que preciso ficar em relação ao meu objeto causa de desejo? Coisas do tipo “quando estou solteiro, sinto falta de um relacionamento, quando estou num relacionamento sinto falta de ser solteiro? A pessoa que traz uma fala dessas se julga estranha, contraditória, infelizmente alguns ainda chamam isso de “bipolaridade”. Mas se trata justamente disso, qual a distância exata? Essa é a pergunta feita para o analista.

Aliás, este é o lugar de onde o analista responde, o analista carrega o objeto a no bolso. Desde as primeiras aulas eu comento sobre o analista sabido demais, este acaba figurando como uma figura mágica, um guru e até mesmo uma presença paranóica. Aí então questionam, “então o analista lacaniano é distante e frio?” Claro que não, pois sendo assim não causaria movimento na análise do paciente. O analista está na justa distância em que pode figurar para o paciente como objeto a, próximo e distante, ocupando assim o lugar de causa do desejo do paciente, levando à montagem do matema da fantasia, o paciente (sujeito $) fica dividido, incerto, frente ao objeto a no “bolso do analista” e montará suas fantasias de completude, agora na análise.

Por essas e outras que Lacan afirma que o analista completa o sintoma do analisando, afinal ele não destinará seu sintoma a qualquer um, mas sim para aquele que ele julgar ter condições de responder, aquele que tem algo que lhe falta, o objeto a. Você falaria de suas questões para qualquer pessoa?

Continuaremos ainda neste assunto.

[email protected]