Lacan do Zero: Aula 9B – Amor ou Gozo?

Deformação Psicanalítica , 11/12/2018

Vimos que a fantasia é aquilo que se produz quando o sujeito se depara com seu objeto “pra sempre perdido” e que representa uma falta em si mesmo que se vê projetada num outro. Este objeto Lacan chamou de “a”, e aqui apresentamos uma de suas facetas e definição, o objeto “causa de desejo”. Diante do objeto a, o sujeito “esquece” da sua própria divisão, de acordo com Fink:

“Ao clivar-se desse resto, o sujeito dividido embora excluído do Outro, pode sustentar a ilusão da totalidade; ao apegar-se ao objeto a, o sujeito é capaz de ignorar sua divisão” (p. 83).

E por que o sujeito se sente pleno, numa totalidade? Basta lembrar que a sua constatação da própria falta foi decorrente da percepção que o Outro deseja uma outra coisa que não o sujeito, sendo assim, o “encontro do objeto a” implica que  encontrou a posição exata frente ao Outro, em que consegue responder ao seu enigma (enigma do desejo do Outro):

“Ao contarem suas fantasias para seus analistas, os analisandos informam sobre o modo como desejam estar relacionados com objeto a; em outras palavras, a forma como eles gostariam de estar posicionados com relação ao desejo do Outro.” (idem).

Cada sujeito localiza a si e ao Outro dentro de uma fantasia, onde “o sujeito pode se fixar  como desejo” (p. 79), mais do que localizado, o sujeito está em uma “prisão domiciliar” (…) “limitado por tudo aquilo que é prazeroso”, ainda que esse prazer também  carregue a faceta do desprazer, e, de dentro dela é possível ouvir o sujeito dizer: “não me tirem do meu conforto”.

Não é à toa que Lacan dirá que ninguém quer ser curado de fato. O que querem é configurar um novo lugar na fantasia para continuarem preso, ameaçados pelo carcereiro que o impede de sair,

“o sujeito só se dá conta de que se trata de uma prisão quando, ao caminhar na direção do portão – que ficava escancarado -, este se fecha devagarzinho à medida que o sujeito dele se aproxima. E a chegada dele junto ao portão coincide com precisão com o seu fechamento. O sujeito percebe então que é o guarda que fica junto ao portão que aciona o seu fechamento, quando alguém demonstra “intenção de fuga”. Mas com o tempo (análise) eles passam a ser amigos e agora o guarda sabe que o sujeito não que mais fugir, e o próprio sujeito também sabe disso, o que ele quer é poder dar alguns passos para fora, ou até mesmo andar para longe e voltar, pois esta prisão domiciliar se transformará em domicílio- isso é o fim de análise, travessia da fantasia. Não se trata de se livrar de toda fantasia, mas poder entrar e sair quando quiser.

Muito importante ressaltar que a fantasia montada não apresenta somente prazer, ela também carrega o desprazer, afinal nela “o sujeito expressa o desejo do outro no papel mais emocionante de si mesmo”, caracterizando assim aquilo que Lacan chamou de gozo: “o gozo é então o que vem para substituir a perda da unidade mãe-criança” (p. 83).

E tudo isso se encaixa dentro da matema: $ <> a

Coutinho Jorge traz uma leitura interessante em que percorre os dois sentidos do matema; do sentido esquerda para direita, o sentido neurótico, no da direita para a esquerda, o sentido da perversão, criando assim os “dois polos da fantasia” (p. 82). Mais precisamente, o pólo do amor (neurose) e o pólo do gozo (perversão).

Existe uma rivalidade fundamental e estrutural entre amor e gozo, detalhe curioso é que que Freud trabalhava em duas mesas ao mesmo tempo, numa delas escrevia “O chiste e sua relação com o inconsciente” e  na outra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, na primeira tratando do dito espirituoso, uma das manifestações do inconsciente, ou seja, uma montagem simbólica e no segundo o real da pulsão.

A fantasia sempre é de completude, no caso da neurose completude de amor, no caso da perversão completude de gozo. Para o neurótico é o Outro que importa, ou melhor, o desejo do Outro que ele quer para si, já para o perverso o que importa é o gozo.

“A diferença fundamental entre amor e gozo reside na produção de sentido inerente ao amor, oposta a falta de sentido intrínseco ao gozo” (Coutinho Jorge, p. 82). O amor é aquilo que vem para dar sentido ao não sentido da relação sexual – “o que vem em suplência à relação sexual é precisamente o amor” (idem).

Polo inconsciente           Polo pulsional

$                        <>            a

Simbólico                         Real

Amor                                 Desejo Gozo

A neurose e o amor que barra o gozo:

“Um jovem analisando, com uma estrutura obsessiva, certa vez chegou à sessão dizendo que concluiu que iria terminar seu namoro, porque compreenderá uma coisa muito importante. Se ele continuasse sentindo atração física por outras meninas era porque sua namorada não era a mulher da vida dele. Essa expressão “mulher da vida dele ” mostra que na neurose existe a tentativa de, através do amor, preencher o vazio e resgatar a completude perdida, elidindo  a dimensão do gozo.” (p. 84 e 85).

Já o perverso, “tem uma fantasia de completude de gozo, que ele almeja resgatar a completude perdida pelo viés do gozo, através do ancoramento fixo num determinado objeto a, pois o objeto a, precisa Lacan, é aquilo que  quaisquer que sejam as ditas perversões, está lá como.causa delas” (p. 85). Futuramente veremos que para tal, na perversão, esse objeto a será recoberto por um véu, é passará a ser um objeto fetiche.

Por fim, é fundamental recordar a máxima de Freud: “A neurose é o negativo da perversão”, que apontará o caminho da clínica destes opostos complementares, onde só existe amor, que apareça o gozo, é onde só existir gozo, que o amor possa adentrar.

Coutinho Jorge, M.A. – Fundamentos da Psicanálise Volume 2

Fink, B. – O sujeito lacaniano

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