Freud com Charcot (Parte 1) – A teoria é algo bom, mas não impede algo de existir

Freud , 12/02/2018

Jean-Martin Charcot viveu entre 1825 e 1893 e ficou conhecido por seus trabalhos em neurologia no hospital Salpêtrie. Apesar de, naquela época, a hipnose ser considerada pelos médicos como uma fraude, Charcot utilizava este método no tratamento de seus doentes, pois constatou que “um grande hipnotismo caracterizava o que ele chamava de uma grande histeria” (p. 24). Freud obteve uma bolsa de pós-doutorado e entre outubro de 1885 a maio de 1886 acompanhou o trabalho de Charcot. Impressionado com o que assistiu, Freud escreve para sua noiva Martha em 24 de novembro de 1885:

“Charcot, que é um dos maiores médicos e cuja razão beira a genialidade está simplesmente demolindo minhas concepções e meus planos. Saio de seus cursos como eu saía de Notre-Dame, cheio de novas ideias sobre a perfeição. Mas ele me esgota e quando o deixo não tenho mais nenhuma vontade de trabalhar em meus próprios trabalhos, tão insignificantes (…). Nenhum outro homem jamais teve tanta influencia sobre mim” (p. 25).

Graças a esta experiência com Charcot que Freud aprenderá a diferenciar patologia psíquica de patologia física.

Mas o que deixou Freud tão impactado? A seguir um pequeno recorte das intervenções feitas por Charcot, trata-se do caso de uma jovem com sintomas histéricos (paralisia nas mãos, sobretudo na direita e ao mesmo tempo paralisia cutânea) acompanhada de sua mãe:

Charcot (C): Que idade a senhorita tem?Doente (D): Vinte e dois anos.
C: A senhorita tem ataques desde quando?
D: Desde o último dia 24 de dezembro.
C: Há alguma causa que a senhorita possa invocar?
Mãe da doente (M): Não conhecemos nenhuma.
C: Sua filha foi contrariada?
M: Não, senhor, mas ela se contraria facilmente, ela fica nervosa com qualquer coisa há algum tempo.
C: Ela teve alguma doença aguda recentemente?
M: Não, senhor.
C: Qual a profissão dela?
M: Ela é lavadeira, ela passa roupa.
C: Ela trabalha muito?
M: Sim, senhor, há vários meses.
C: Como são as crises?
M: Ela começa caindo no chão, ela rola, ela rasga tudo o que alcança, ela grita, seu olhar se torna fixo e depois ela se levanta, nos segue e se joga sobre nós.
C: Eis uma boa descrição, e podemos reconhecer aqui as características do grande ataque de acordo com nossa descrição: 1) em primeiro lugar é o período dos grandes movimentos; depois 2) o das atitudes passionais. Ela rola, se rasga, e então fixa seu olhar em um ponto: evidentemente uma visão se apresenta a ela, e os movimentos que ela executa nesse momento estão subordinados a alucinação.
M: Em alguns momentos ela parece feliz, ela ri e então parece ver alguma coisa que a apavora.
C: Assim sucessivamente ela tem visões alegres, e depois visões tristes: essa é de algum modo a regra. Ela fala?
M: Sim, ela fala de uma coisa e depois de outra; as vezes ela me chama, ou então ela diz que vê um homem barbudo.
C: Um homem?
M: Sim, as vezes um homem, mas outras vezes uma mulher. O homem que ela vê é feio, assustador!
C: Talvez haja aí uma história que é inútil aprofundar neste momento. Sabemos o suficiente para dizer que não se trata de epilepsia e sim de histeria sob a forma de grande histeria ou histero-epilepsia com crises mistas (p. 26).

Neste diálogo entre Charcot e a paciente é possível verificar que a mãe fala pela filha, tratando-a como se fosse objeto. Um discurso fusional entre mãe e filha, e que mostra uma das estruturas mínimas para se compreender anos depois quando Lacan dirá que o “eu é um outro”.
Freud, assim como outros alunos, fazia uma série de objeções sobre as ideias de Charcot, e ele as refutava pacientemente. Em uma passagem clássica, Freud e um pequeno grupo criticam Charcot pois determinava evidencia apresentada contradizia a teoria de Young-Helmholtz e a resposta marcará para sempre Freud: “tanto pior para a teoria, os fatos da clínica têm preferência. A teoria é algo bom, mas não impede algo de existir” (p. 28).

 

Referência Bibliográfica:

Sédat, Jacques – Compreender Freud, 2007