O apego na constituição do indivíduo e na Psicoterapia – Ideias Clínicas

Ideias Clínicas , 29/07/2020

São muitas as formas de compreender o sofrimento psíquico humano, e dentre elas uma das que mais me agrada, pois é visível o tempo todo na clínica, é a ideia da importância do apego e do vínculo afetivo em seus desdobramentos, para o bem e para o mal. 

Para ajudar numa localização do ponto de partida das ideias, retomo aqui uma divisão feita por Greenberg e Mitchell (1983), na diferenciação da Psicanálise em dois modelos, o pulsional e o relacional. Enquanto o pulsional postula que o elemento mais variável da pulsão é o objeto, e assim a busca por algo é uma vazio crônico no ser humano – e a análise é um processo para lidar com isso. Já o modelo relacional entende que o elemento menos variável é o objeto, Gabbard inclusive afirma que “as pulsões (impulsos) surgem no contexto de uma relação” (Gabbard, 2016, p. 40). 

Alguns autores seguem esses ponto de vista, por exemplo Winnicott que acha certas propostas teóricas sobre pulsão, introjeção e projeção, são inferências muito complexas para um bebê, e ele como pediatra (que atendeu mais de 60 mil crianças) teve experiência suficiente para afirmar sobre a precariedade humana: nascemos com uma tendência inata à integração, dependemos do cuidado ambiental (pois o cuidador ainda nem é percebido como uma coisa externa ao bebê, do ponto de vista do bebê) e que estamos sempre a pique de sofrer uma ansiedade inimaginável, caso o ambiente ofereça falhas que estejam para além da capacidade do bebê suportar. 

Assim como ele, outros autores atribuem grande importância a esse cuidado inicial, que visa neutralizar essas experiências de precariedade inicial, como Lacan (Seminário 17) cita Bichat: “a vida é o conjunto de forças que resiste à morte”, aliás em outro momento ele associa isso incialmente ao desejo da mãe, ele é capital para o estabelecimento de uma organização neutralizante de um caos inicial. 

Na leitura de Bowlby (Malan 2008), decorrente do nascimento prematuro, o ser humano depende por muito tempo de cuidadores, “sua sobrevivência subordina-se a um vínculo seguro com esses indivíduos” (p. 21) e Davanloo segue nessa ideia e afirma que a única coisa inata no ser humano é a “capacidade de desenvolver vínculos afetivos com cuidadores” (p. 20). 

Retomando a ideia inicial do texto, o sofrimento psíquico, a partir desse pequeno percurso acima, é pensada a partir da frustração ou impedimento desse vínculo: “ela provoca dor interna e raiva reativa com relação aos privadores”. (Idem). Na saúde, quando as condições não são frustrantes, temos a possibilidade do amor e apego, no outro extremo, quando existe extrema frustração ou impedimento, se erigem defesas contra a proximidade emocional.  Malan & Della Selva descrevem passo a passo esse processo dentro de uma espiral de círculos: 

1- No centro, encontra-se a luta pelo amor e apego, inata em nossa espécie. 

2- Quando o desejo de afeto é frustrado, isso causa dor e pesar, que desencadeiam a

3- Raiva retaliatória do privador. 

4- A raiva está coberta de culpa, o que leva também à ansiedade, já que a ameaça os vínculos de apego primários pelo qual o indivíduo está lutando. 

5- Finalmente, se esses impulsos inatos voltados para o vínculo e para o apego são negligenciados ou perturbados com muita frequência, o indivíduo começa a estabelecer uma distância, tanto com relação a seus próprios afetos quanto com relação às outras pessoas. Essa barreira contra a proximidade emocional e contra a intimidade – com seu mundo interno e os outros – está apresentada pra camada externa, descrita por Davanloo como “defesas contra a proximidade emocional”. Tais defesas são quase sempre caracterológicas e difusas. Reich referiu-se a elas como “couraça caracterológica”, enquanto Winnicott usou o termo falso self. 

Dentro dessa perspectiva, qual seria a função da Psicoterapia?

Romper essa barreira contra a intimidade e contra a proximidade na transferência se quisermos ter esperança de acessar os sentimentos negados que se encontram sob ela (p. 20).

 

Referências Bibliográficas

Gabbard, G. – Psiquiatria Psicodinâmica

Malan, D. – Psicoterapia Dinâmica Intensiva Breve

Lacan, J. – Seminário 17

Saulo Durso Ferreira -Psicólogo/Psicanalista- CRP: 06/88338 Mestre em Psicologia pela PUCCAMP Graduado em Psicologia pela Universidade São Marcos Professor e Supervisor de Psicanálise

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