Característica do Préstimo na Interpretação Lacaniana

Lacan , 15/06/2018

O ano é 1900. A virada do século. Momento este da história escolhido por Freud para lançar aquele que seria mais tarde o livro mais conhecido dentro de sua obra, o “Interpretação dos Sonhos”. Livro este que quase como que lança a sua ciência do inconsciente para o mundo, a Psicanálise. Desde então, quase como um feiticeiro munido de sua bola de cristal, o analista é visto pelo senso comum como aquele que irá interpretar todos os sinais e sinas daquele que o procura. “Freud explica!” reverbera até hoje, e de fato o trabalho do analista é interpretar. Porém, a interpretação psicanalítica se propõe a outra coisa.  

Sabe-se que “psicanálise selvagem” não tem propósitos clínicos, muito menos proporciona algum benefício para aquele que for alvo de uma. Tentar ser aquele que tem a verdade última sobre os enigmas do outro serve apenas para o profissional, que vive nas alturas do seu narcisismo, mostrar seus malabarismos. Obter conhecimento ou uma resposta sobre um enigma através de um outro não é o caminho quando falamos do inconsciente. O saber não ajuda quando a causa do sofrimento psíquico da pessoa não é um esquecimento, mas sim aquilo que fez desencadear esse esquecimento – o recalque, quando falamos em neurose. Freud (1910/2017, p. 87) faz uma boa comparação dizendo que isso seria tão eficaz para solucionar “… quanto a distribuição de cardápios para os famintos.”. De nada vale uma interpretação se não estiver dentro de um processo de análise, local onde essa experiência pode ocorrer, fruto da relação entre analista e analisando. Ferramenta do analista, a interpretação lhe permite utilizar-se do mundo de palavras trazidas até ele por seus pacientes. 

Lacan em “Televisão” (1974/2003, p. 543) disse o seguinte: “A interpretação precisa ser presta para prestar o entrepréstimo [entrepêt]”. Conhecido por sua escrita difícil e rica, além de seus neologismos, Lacan nos lança um desafio a cada sentença nos convidando para ler aquilo que ele tem a dizer. Sendo assim, para que serve a interpretação? Do que ela precisa para “ser presta” dentro do trabalho psicanalítico?

Em seu retorno a Freud, como apontou Fontenele (2002), Lacan quis mostrar que era necessário aos psicanalistas se recuperam de seu desvio e se aterem aos fundamentos da psicanálise, sem abandonar os alicerces da ciência estabelecida por Freud. Isso implica em não abandonar o inconsciente e suas lógicas de funcionamento. Assim ele firmou sua posição indo contra todo e qualquer psicologismo proveniente da Psicologia do Eu, afinal o “Eu” é um engano. Podemos ter uma visão macro da teoria lacaniana nos debruçando sobre sua famosa tríade de registros que guiaram sua teorização – Imaginário, Simbólico, e Real. Ideias e conceitos foram se transformando ao longo das articulações de Lacan acerca desses registros, assim como a interpretação.

Lacan nos atenta em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” (1953/1998) para os psicanalistas que atuavam apenas no Imaginário, que tentam explicar os sintomas do paciente para ele e os motivos disso ocorrer. Esse tipo de psicanalista, como citado anteriormente aqui, foca no “Eu” do paciente calcado em suas identificações, reforçando-as quando se apega a “fala vazia” do paciente. Como corrobora Fink (2007/2017, p. 140) “o neurótico sempre vem para a análise com todo tipo de entendimento da sua situação”, carregado de sentidos para suas queixas, fundadas no lugar em que ele se identifica em sua história. A tarefa do psicanalista é abrir vias para que o analisando se questione a respeito de sua posição, fazendo surgir a “fala plena” que aponta para a verdade do sujeito (Lacan, 1953/1998). Proporcionando assim que haja espaço para as vacilações das certezas do analisando, rompendo com a estagnação para surgir novas descobertas que partirão dele e não do analista – ele está lá para ouvir o esforço do analisando em se redescobrir. A interpretação visaria essa passagem, possibilitando que o sujeito se aproprie de seu desejo.

Em seu trabalho, o analista pode usufruir de diversas formas de intervenção e interação com o analisando. Porém, a interpretação é a que corrobora para produzir efeitos de mudança. Para Fink (2007/2017) ela visa produzir um impacto no analisando, diferenciando-se assim da sugestão. Não se trata de dizer algo que o analisando irá concordar, mas o analista lacaniano interpreta de modo que o próprio analisando possa encontrar os significados no material que ele leva as sessões, evitando que novas identificações possam surgir, como já citado anteriormente, interrompendo o processo analítico. A interpretação deve ser “algo suficientemente polivalente, mesmo que não seja entendido, que ressoe provocando curiosidade e desejo de adivinhar porque a analista disse o que disse” (Idem p. 148, 149). Isso possibilita com que o analista, ao longo do processo, possa levar o analisando a se confrontar com a falta do Outro e aceitar para que assim possa construir um futuro para si, como sujeito desejante.

Parece ser consenso entre outros autores a compreensão da necessidade do ato do psicanalista – seja ele palavra, frase, gesto, ou questão – causar um efeito no analisando para ser considerado uma interpretação. Segundo Prata e da Costa-Rosa (2011) Lacan vai intervir a respeito dizendo que a “interpretação é feita somente a partir de um determinado lugar; o lugar do Outro, entendido como campo do simbólico.”, lembrando que ainda estamos às voltas com a sua primeira clínica.  Nasio (1999/1999) levanta algumas condições nas quais a interpretação se produz: aquilo que for dito é preciso que diga a respeito do analisando, pois só assim isso já será algo esperado; pela verdade ser semi-dita por natureza, só existe metade de uma verdade, aquilo que for dito deve presentificar sua característica de ambiguidade; essa fala precisa ser semi-dita em um determinado momento e contexto. São palavras que o analista profere sem sabê-las, em um momento esperado pelo analisando, onde os inconscientes conversam.  Martinho (2012) mostra que a interpretação é aquilo que permite um levantamento do recalque, levando o analisando a poder pensar algo que não podia anteriormente. Também menciona que Lacan denominou alguns tipos de interpretação – pontuação, corte, semidizer, alusão, e o equívoco. 

Propiciar esse momento e condições para que o ato psicanalítico ocorra exige um preço do analista, que paga com o seu ser não implicando-o no processo, como vemos Lacan (1958) descrever em  “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”. O analista dirige o tratamento apenas, fazendo com que o analisando se atenha a regra fundamental da associação livre,  não devendo dirigir o paciente de forma alguma. A interpretação se vale dos aspectos da linguagem e sua polissemia, visando o significante ligado ao desejo do analisando. Interpretação é interpretação do desejo.

Leite (2000) assinala que na segunda clínica lacaniana, a partir da década de 70 às voltas com o conceito do objeto pequeno a, tentando explorar os campos do Real, a interpretação “não seria mais concebida como uma mensagem a ser decifrada, mas um ato que incidiria no gozo produzido pelo ciframento.”. O deciframento da mensagem não elimina o enigma do analisando, que deve passar pelo non sense da coisa. Com isso Lacan aponta a relação entre o dizer e o dito, onde o material que deve ser interpretado está no primeiro e não no segundo. Aqui retomamos a ideia de interpretação como equívoco citada por Martinho (2012), que comenta que para Lacan ela “deve operar por meio do equívoco, na medida em que ele é um instrumento que não sugere, não impõe a maneira de ver do analista, deixando assim, aberta a escolha do sentido que o analisante queira lhe dar.”. São enumerados três tipos de equívocos: homofonia, gramática, e lógica. Com desejo e gozo se contrapondo, o analista passou a agir na causa do desejo do analisando como é formulado no discurso do analista, em um “faz de conta” de objeto a – balizado por seu desejo de analista.

Como algo do Real sempre escapa à simbolização, cada vez que o sujeito toca em seu enigma via trabalho de interpretação do analista, ele cai em um novo enigma – o que fazer com isso?

O analista dirige o tratamento apenas, fazendo com que o analisando se atenha a regra fundamental da associação livre,  não devendo dirigir o paciente de forma alguma. A interpretação se vale dos aspectos da linguagem e sua polissemia, visando o significante ligado ao desejo do analisando. Interpretação é interpretação do desejo.

Referências Bibliográficas

Fink, B. (2007) Fundamentos da Técnica Psicanalítica: Uma Abordagem Lacaniana Para Praticantes. São Paulo: Blucher; Karnac, 2017

Fontenele, L. B. (2002) A Interpretação. Coleção Psicanálise Passo-a-Passo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002

Freud, S. (1910) Sobre Psicanálise “Selvagem”. In: Fundamentos da Clínica Psicanalítica – Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017

Lacan, J. (1953) Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998

______  (1958) A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998

______   (1974) Televisão. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003

Leite, M. P. de S. (2000). Na segunda clínica de lacan a palavra não se dirige ao outro. Estilos da Clinica, 5(9), 169-181. Recuperado em 09 de maio de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282000000200013&lng=pt&tlng=pt.

Martinho, M. H. (2012). A interpretação psicanalítica: “um dizer nada”. Stylus (Rio de Janeiro), (24), 77-84. Recuperado em 09 de maio de 2018, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-157X2012000100008&lng=pt&tlng=pt.

Nasio, J. -D. (1999) Como Trabalha um Psicanalista? Rio de Janeiro: Zahar, 1999

Pratta, N. , da Costa-Rosa, A., O grupo psicoterapêutico e a interpretação na abordagem lacaniana: reflexão e redefinição de possibilidades e modos de atendimento na Saúde Coletiva. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental [en linea] 2011, 14 (Diciembre-Sin mes) : [Fecha de consulta: 7 de mayo de 2018] Disponible en:http://www.redalyc.org/pdf/2330/233021455007.pdf 

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