A ética do bem-dizer

Lacan , 28/05/2018

A ética da psicanálise está na vertente clínica e é a ética do bem dizer, da palavra que é dita no contexto transferencial e que produz efeito na direção do tratamento. Cada interpretação coloca o sujeito na frente do seu desejo e do seu modo de gozo, levando em conta que a ética da psicanálise é manter a estrutura da falta do inconsciente.   

No seminário 7 Lacan vai falar da ética, critica os analistas norte americanos que se portavam como ego autônomos para guiar seus pacientes. Uma espécie de pastor espiritual, responsável por fazer o analisando atingir uma relação de objeto satisfatória, apaziguando as pulsões e resolvendo a relação com objetos parciais, como uma ortopedia, algo marcado pela moral por ser semelhante para todos.

Uma questão sobre o direcionamento do tratamento, “O sujeito pensado por Lacan é marcado justamente pela errância, as identidades que fixamos são continuamente desconstruídas e reconstruídas pelo movimento do desejo” (Wendling; Coelho, 2016, p. 140).

A ética é uma disciplina que regula e regulamenta as normas para que todos os indivíduos possam segui-la, porém no campo psicanalítico proposto por Lacan o que encontramos já em sua base é o desejo do analista (Santoro, 2006). A ética da psicanálise se refere a posição analítica e não a profissão de analista.  O enunciado do analista visa apontar nesse caminho do enigma para que o analisando caminhe em direção ao vazio, ao seu vazio.

A análise é um encontro do sujeito com seu desejo, desta maneira há apenas um sujeito naquele contexto, o analista entra como uma função. Por isso não é um encontro nada fácil fazer operar uma análise. É preciso vencer a barreira do imaginário, do sentido, para se chegar ao sem sentido, ir além da consciência e deciframos as construções do inconsciente. A análise é um discurso unilateral, à medida que apenas um sujeito manifesta seu desejo, o silenciar, suspender o eu do analista promove a proliferação da fala de quem tem que falar: o sujeito.

A ética do bem dizer abre espaço para o discurso e lá ao desejo, é a palavra que causa efeito. Não tem a ver com a eloquência do discurso. Na sociedade industrial muito se é dito em relação a racionalização e construção de argumentação e por isso a  psicanálise se apresenta como um discurso de difícil compreensão, como um saber oficial que não diz o que o sujeito tem. Os psicofármacos e a neurociências, por exemplo, apresentam uma objetividade para abordar o que tem de subjetivo. A ética da psicanálise não se opera nessa lógica. O analista não assume o lugar do saber, o lugar de mestre já que a questão é tornar o ser falante e faltante.

A ética da psicanálise se refere a posição analítica e não a profissão de analista.  O enunciado do analista visa apontar nesse caminho do enigma para que o analisando caminhe em direção ao vazio, ao seu vazio.

O discurso analítico é o do questionamento, aponta a incerteza, convoca o sujeito a responder pelas suas escolhas e mostra que a vida é arriscada e uma aposta. Que talvez o ganho esteja nesse caminho e não necessariamente no final, porque o final não existe. Para o analista está relacionado a enunciação, ou seja, o que ele quer dizer com o que se diz na interpretação, nesse manejo onde o analisando é colocado na posição de sujeito do suposto saber. 

Lacan permaneceu na ética da psicanálise, não se interessando em dizer o que ela é e nem onde está esse bem. Essa ética do particular que leva em consideração a relação entre o desejo e o gozo. Sendo assim não há promessas e nem garantias, a psicanálise só pode aparecer como ética do bem-dizer o desejo. Assim abre a possibilidade para pensarmos o “a mais” que em muitos momentos esperamos e que pode tornar esse momento como toda-possível. Frente a um mundo cheio de promessas aqui é proposto possibilidades, abrir caminho para se lidar de modos diferentes ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades para o sintoma. 

O analista cria a demanda de saber e não responde a demanda, para mostrar que o verdadeiro sujeito do suposto saber é o sujeito, portanto o analisante, ele que tem que escutar o que o seu ego não quer saber.

Referências Bibliográficas

LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959/60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, J. Televisão (1974). In________________Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 508-543.

SANTORO, V. C. Clínica Psicanalítica e ética. Revista Reverso, Belo Horizonte, Ano 28, n.53, p. 61-66, Set. 2006.

Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952006000100009

Acessado em: 23/04/18 

WENDLING, M. M.; COELHO, D. M. Do “não ceder de seu desejo” ao “bem-dizer o desejo”: considerações acerca da ética de Lacan. Fractal: Revista de Psicologia, v.28, n. 1, p. 139-145, jan – abr. 2016.

Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1984-0292/1045

Acessado em: 21/04/18

Suiani Fustinoni – Psicóloga e Psicanalista

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