Lalangue – gozando do Outro: Uma presença Real no discurso

Lacan , 11/07/2018

(…) Vocês veem que lalíngua, lalíngua que escrevo numa só palavra, lalíngua que, entretanto, é boa moça, resiste. Ela faz beicinho. Goza-se, é necessário que se diga, do Outro, goza-se mentalmente. (…). (LACAN, 1972) 

Lacan fala em lalangue pela primeira vez em O saber do psicanalista em sua aula de 4 de Novembro de 1971. Ele volta a falar em lalangue em diversos trechos nos 21 seminários e conferências que realizou entre 1972 e 1980. O seminário onde lalangue foi teorizada de forma mais expressive foi o Mais, ainda que ocorreu entre 1972 e 1973, mais especificamente na aula de 26 de Junho de 1973, correspondente ao capítulo X: O Rato no Labirinto – uma aula dedicada ao tema.  

(…) Bem, alíngua não tem nada a ver com o dicionário, qualquer que seja. O dicionário tem a ver com a dicção, isto é, com apoesia e com a retórica, por exemplo. (…) Apenas, justamente, não é esse lado que tem a ver com o inconsciente. (…) Eu não sei por que, contrariamente ao que é ainda muito difundido, a vertente útil na função da alíngua, a vertente útil para nós psicanalistas, para aqueles que lidam com o inconsciente, é a lógica. (…). Para começar eu digo que, se falo de linguagem, é porque se trata de traços comuns a encontrar na alíngua; a alíngua, sendo ela própria sujeita a uma variedade muito grande, tem todavia constantes. (…). (LACAN, 1973)

A tradução que se costuma encontrar para o neologismo lalangue nos textos lacanianos é alíngua, mas existem distúrbios epistêmicos nas traduções. Traduções são sempre problemáticas pois muitas vezes não se encontra termo correspondente no idioma de destino para o que se pretende comunicar – e isso pode ser ainda mais problemático se tratando de um neologismo, que parte da mesma ideia de não encontrar na língua o que se deseja comunicar. Lacan, fazendo uso do neologismo como de costume, cunhou o termo como lalangue. A tradução alíngua perturba, porque a letra a afrente de uma palavra em português a torna o negativo daquela palavra. Alíngua seria o negativo da língua, e não há nenhum sentido de negatividade no conceito de lalangue. No entanto, o termo alíngua foi adotado para citações diretas onde o termo lalangue fora traduzido como alíngua. 

 

O que é lalangue? 

Lalangue começa enquanto uma tremenda experiência de gozo que é gradualmente rebaixada a uma singela presença reminiscente desse gozo, que tanto preexiste quanto promove a linguagem. É algo rudimentar e primitivo que remete a um tempo de jouissance tão fundamentalmente constituinte e ao mesmo tempo, para sempre perdido para o sujeito falante. Lacan dirá (1973), que se trata da “fala primordial e arcaica materna”. Uma língua tem significantes, sentidos, gramática formal – muito diferente de lalangue. Ainda em uma aula de seu seminário Mais ainda (1973), capítulo X: O Rato no Labirinto (pp. 188-190), Lacan diz  “Só que, uma coisa é clara, a linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo lalangue.” Lacan cria esse neologismo unindo o artigo definido à palavra langue – “imperfeita e que permite falar para nada dizer, dizer o que não se sabe, e mais ou menos o que se sabe” (p. 61).

Para entender do que se trata lalangue é necessário se pensar no infans, ou, aquele que não fala. Em seu livro Lacan: O Inconsciente Reinventado, Colete Soler demonstra que lalangue estaria diretamente ligada aos afetos eróticos associados ao eu-prazer do infans, produto da dialética fálica entre mãe e bebê. Logo, entende-se que lalangue é algo do corpo, uma experiencia corpórea. Também em Mais Ainda Lacan nos diz “Lalangue é o mistério do corpo falante”.  Há em lalangue uma pulsão erótica que atende o gozo do corpo infantil na interação entre dois corpos – o da mãe e do bebê. “(…) o rumor é o próprio ruído do gozo plural”. (BARTHES, 2012) Trata-se da verdadeira língua materna – aquela da unidade Um de Dois. Uma primeira língua escutada enquanto são dados os primeiros cuidados ao corpo. A lalação, o canto emitido pela mãe, ao qual o bebê responde com um sorriso, um murmúrio, um balbucio – isso é lalangue. 

(…) Se eu disse que a linguagem é aquilo como o que o inconsciente é estruturado, é mesmo porque, a linguagem, de começo, ela não existe. A linguagem é o que se tenta saber concernentemente à função da alíngua. (LACAN, 1973) 

Lalangue não carrega sentido ou estrutura sintática mas há nela um sentido harmônico para o infans que é encontrado no canto de ninar da mãe e nos ruídos orais emitidos pela criança. Essa experiência corporal atende a jouissance, ou gozo, fazendo dela terreno fértil para se plantar o extra-corporal – a linguagem e o discurso. Não há dúvida de que a lalangue, uma experiência do Real, prepara o infans para a entrada bem sucedida no simbólico onde o nome-do-pai exercerá a sua função. A criança privada desse investimento erótico, dessa experiência corporal, auditiva e verbal-sonora poderá ir de encontro ao autismo, segundo Soler (2012). O linguísta e semiótico francês Roland Barthes cita em seu livro O Rumor da Língua:

O rumor é o barulho daquilo que está funcionando bem. Segue-se o paradoxo: o rumor denota um barulho limite, um barulho impossível, o barulho daquilo que, funcionando com perfeição, não tem barulho; (…) São então as máquinas felizes que rumorejam. Quando a máquina erótica, mil vezes imaginada e descrita por Sade, aglomerado “pensado” de corpos cujas regiões amorosas estão cuidadosamente ajustadas umas as outras, quando essa máquina põe-se a funcionar, pelos movimentos convulsivos dos participantes, ela treme e rumoreja levemente; enfim, ela está funcionando, e funcionando bem. (BARTHES, 2012, pg. 94)

Em seu livro O Sujeito Lacaniano: Entre a Linguagem e o Gozo, Bruce Fink alega que o sujeito castrado é obrigado a abrir mão de jouissance, ou gozo. Na castração, a jouissance faz um shift para o Outro – um processo que conhecemos como linguagem, a entrada do sujeito no simbólico.  Como a linguagem habita o sujeito, ainda é possível obter algum gozo dela, como na manipulação divertida de significantes que se encontra nas piadas, absurdos e etc.  Enquanto seres falantes, os sujeitos manipulam a linguagem e deixam que ela aja fora deles. Sofrem aí uma falta, como na mais valia, onde o gozo é tirado do trabalhador e entregue ao capitalista. 

Freud viu essa perda como renuncia instintual, onde a perda do objeto de amor era a causa primordial da busca por outros objetos. A civilização é uma sublimação das forças da repressão do objeto de amor perdido ditada pelo nome-do-pai. A lei simbólica substituí jouissance por códigos pré-existentes, o que faz de lalangue uma presença daquilo que fora perdido para o sujeito castrado e da linguagem, um código que preexiste o sujeito e que é precário e limitante. Lalangue pode ser encontrada no discurso do sujeito como reminiscência e presença de um real intraduzível, que não pode ser recoberto completamente.. O chiste é um bom exemplo, conforme exposto por Lacan (1976) ” (…) a gente se reconhece no chiste porque ele comporta o que eu chamei alíngua. O interesse do chiste para o inconsciente está ligado à aquisição d’alíngua. (…).” 

Na língua, o real transita em forma de lalangue, fazendo romper o fio discursivo e isso se nota no equívoco – o furo do discurso. Logo, o real pode ser revelado no discurso através do equívoco e manifesta-se no parecido, no repetido, no non-sense, no absurdo e até mesmo no neologismo. Segundo TFOUNI, 2001 “(…)  ao marcar a falta, o equívoco traz em seu seio indícios de um real inatingível”. Todas essas formas rompem o fio discursivo e revelam que o que é enunciado pode ser aquilo que está sendo dito e mais ainda, mais alguma coisa. “A linguagem é uma elucubração de saber sobre alíngua. (…).” (Lacan, 1973). Ou seja, lalangue é a fala em sua desjuntura da estrutura da linguagem e que oferece indícios do real. 

Os signficantes do Outro não dão conta do que se quer dizer, mas é o querer dizer, justamente, que diferencia duas formas distintas de linguagem elaboradas por Lacan– uma que visa comunicar, a linguagem dos signos, e outra que visa jouissance ou gozar, a linguagem da fala. É para a segunda que voltamos a nossa atenção para entender o que é lalangue – uma fala que não visa, necesariamente, a comunicação, mas algo da ordem de um real que não pode ser dito mas que marca sua presença na língua. Querer dizer é querer dizer sempre para um outro. Na tentativa de comunicação, ainda que o discurso esteja fadado ao equívoco, há laço social. É o fenômeno da incompletude do dizer permeado pelo desejo por se comunicar. Este equívoco está articulado a um sem-sentido, algo que escapa a linguagem gramatical e lexicográfica porque, segundo BARTHES 2012, a precede em seu caráter rudimentar, em sua dimensão rupestre. É a impossibilidade unida ao desejo – isso é o sujeito se comunicando. 

Alíngua serve para coisas inteiramente diferentes da comunicação. É o que a experiência do inconsciente mostrou, no que ele é feito de alíngua, essa alíngua que vocês sabem que eu a escrevo numa só palavra, para designar o que é a ocupação de cada um de nós, alíngua dita materna, e não por nada dita assim. Se a comunicação se aproxima do que se exerce efetivamente no gozo da alíngua, é que ela implica a réplica, dito de outro modo, o diálogo. Mas alíngua, será que ela serve primeiro para o diálogo? Como articulei de outra vez, nada é menos garantido do que isto. (…). (LACAN, 1973) 

Lacan expõe em “Mais, ainda” que o inconsciente é o testemunho de um saber que em grande parte escapa ao ser falante e questiona os efeitos da lalangue que seguem enigmaticos pois há um colorido afetivo de que não se presta contas ou explica através da linguagem. São os afetos enquanto resultado da presença de lalangue, que estão para muito além que aquilo que o falante suporta enunciar. A linguagem é feita de lalangue, mas o inconsciente é um saber-fazer com lalangue. E esse saber-fazer está para muito além da linguagem. Lalangue afeta porque comporta os afetos que estão muito além do que o ser falante é suscetível de enunciar. 

Logo, a conclusão de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Que linguagem é essa? Uma linguagem hipotética, sempre. Hipotética com relação ao que a sustenta: lalangue. (LACAN, 1974) Por isso, lalangue é a língua da magia, da criança, dos amantes. É palavra fora de significação e que está em oposição a linguagem estruturada. Ela separa o saber do real – é um saber-fazer. Enquanto a linguagem se defende do real, lalangue o veicula. Lalangue é da ordem do monólogo. Ela não precisa do Outro. Goza do Outro!

Com a compreensão do caráter anti-comunicacional de lalangue e percebendo o quanto se aproxima do monólogo, torna-se inevitável não aproximar lalangue do estilo lingüístico de Lacan, que falava sem muita preocupação em se fazer entender – que falava sem sequer a palavra existir (!) – criando centenas de neologismos. Lacan não parecia falar para um Outro e fez do não-sentido um convite para o  “ser tolo”. 

E a lingua, pode rumorejar? Falada, ela permanece, parece, condenada ao balbucio; escrita, ao silêncio e a dimensão dos signos: de qualquer modo, fica ainda demasiado sentido para que a linguagem realize um gozo que seria próprio a sua materia. Mas o que é impossível, não é inconcebível: o rumor da língua forma uma utopia. Que utopia? A de uma música do sentido; com isso quero dizer que em seu estado utópico a língua seria ampliada, eu diria mesmo desnaturada, até formar uma imensa trama sonora em que o aparelho semântico se acharia irrealizado; o significante fônico, métrico, vocal, se desfraldaria em toda sua suntuosidade, sem que jamais dele se despegasse um signo (viesse naturalizar esse puro lençol de gozo), mas também – e aí está o mais difícil – sem que o sentido seja brutalmente dispensado, dogmáticamente excluído, enfim castrado. Rumorejante, confiada ao significante por um movimiento inaudito, desconhecido de nossos discursos racionais, nem por isso a língua deixaria um horizonte do sentido: o sentido, indiviso, impenetrável, inominável, seria no entanto posto longe como uma miragem, fazendo do exercício vocal, uma paisagem dupla munida de um “fundo”; mas em lugar de a música dos fonemas ser o “fundo” das nossas mensagens (como acontece na nossa Poesia), o sentido seria aqui o ponto de fuga do gozo. E da mesma forma que, atribuído a máquina, o rumor não é mais que o ruído de uma ausência de ruído, referido a língua, ele seria esse sentido que faz ouvir, uma isenção de sentido, ou – é a mesma coisa – esse não-sentido que faria ouvir ao longe um sentido agora liberto de todas as agressões de que o signo, formado na “triste e selvagem história dos homens”, é a caixa de Pandora. 

Referências Bibliográficas 

SOLER, Colete. Lacan: O Inconsciente Reinventado. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, (2012)  (31-44)

BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. São Paulo: WMF Martins Fontes, Ltda., (2012) (93-98)

FINK, Bruce. O Sujeito Lacaniano: Entre a Linguagem e o Gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., (1998) (43-68)

MILLER, Jacques-Alain. Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. (1996) 

LACAN, Jacques.  O Saber do Psicanalista (1971-1972) p.15, 35, 36

…Ou Pior (1971-1972) p.62,74,75

O aturdito (1972), p. 492, 494

Mais, ainda (1972-1973), p. 113, 188, 189, 190, 192, 193, 194, 195, 196

GÓIS, Elsa, UYENO, Elzira, UENO, Michele e GENESIN, Teresa. Lalangue, Via Régia para Captura do Real. São Paulo, 2015. Artigo do site do IPLA. 

TFOUNI, Leda, PROTTIS, Marcella e BARTIJOTTO, Juliana.  Artigo “…lá onde o amor é tecido de desejo… :lalangue e a irrupao do equívoco na língua”. Rio de Janeiro (2017) 

 

Agatha Compani é Psicóloga e Psicanalista

[email protected]