A maiêutica como uma ferramenta clínica para a Psicanálise

Lacan , 23/05/2018

Maiêutica segundo o dicionário é o método socrático que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades e na conceituação geral de um objeto.

Podemos dizer que ao multiplicar as perguntas, ou seja, ao ser questionado, o sujeito expõe suas ideias se deparando com suas verdades. Sócrates aponta que o conhecimento e a verdade de cada um estão em sua própria mente, é a partir das respostas as perguntas levantadas pelo individuo que este chega ao conhecimento e a verdade que está em si mesmo. 

Para Sócrates a verdade é algo que o sujeito traz a vida, mas para que isto ocorresse nunca dava soluções, apenas levantava algumas perguntas e argumentações levando o sujeito a encontrar a verdade em si mesmo. A maiêutica Socrática é dividida em três períodos: a ironia, a refutação e a maiêutica propriamente dita.

A maiêutica Socrática é dividida em três períodos por alguns autores: a ironia, a refutação e a maiêutica.

  • A ironia é o momento em que Sócrates faz uso de argumentações a fim de investigar a verdade, a coesão e o saber de seu oponente. 
  • A refutação das ideias do sujeito faz com que ele se depare com as falhas do seu pensamento, seu desconhecimento sobre seu próprio pensar levando-o a descobrir verdades. 
  • Após esse processo o sujeito é levado a fase da maiêutica, aqui acontece uma investigação na qual o sujeito é levado a encontrar a verdade em si mesmo. 

Jacques Lacan, ao falar de ciência nos faz voltar ao método socrático. Sócrates com seu discurso histérico colocava seus interlocutores contra o muro, eles eram submetidos a questionamentos e argumentações que os deixavam em duvidas sobre seus próprios conhecimentos e com um saber parcial. “Apesar da histeria de Sócrates, que o impedia de alcançar um conhecimento verdadeiro (afinal, ele só soube que nada sabia), foi ele quem abriu as portas para a fundação da ciência”. (BISPO; SOUZA, p.8, 2012).

A histérica é aquela que duvida do saber do Mestre, aponto que seu saber não é total.  Ela mostra ao Mestre que seu saber não tem capacidade de dizer algo sobre o seu verdadeiro desejo, assim seu discurso revela o inconsciente. É possível perceber em Sócrates o discurso da histérica que levanta duvidas em relação ao Mestre, os seus diálogos com seus interlocutores fazem surgir a impotência dos mesmos ao serem submetidos a duvida e tentarem sustentar os seus ditos.

É também aquilo com que o discurso da histérica questiona o mestre: “Mostre que você é homem!” Mas a representação de coisa, como diz Freud, aqui, já não passa de representação de sua falta. A onipotência não existe: é justamente por isso que ela é pensada. E que não há censura a lhe fazer, como se obstina imbecilmente o psicanalista.

O interesse não está ai – em fazer o luto da essência do macho – , mas em produzir o saber pelo qual se determina a causa que é um desafio em seu ente. (LACAN, p. 438, 2003).

Lacan traz que o propósito da psicanálise é apontar a causa e não se omitir diante dela, para isto faz uso da ciência, ou seja, o saber. A psicanálise traz como os acontecimentos se articulam e não o porquê eles se articulam, diferente dos filósofos que buscam sistemas fechados que dão sentido ao Todo. 

Referencias bibliográficas: 

ASSIS, Elivane Amaral Souza. A maiêutica e a erística no ensino de graduação em ciência e tecnologia. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Elivane_Assis/publication/281032931_A_MAIEUTICA_E_A_ERISTICA_NO_ENSINO_DE_GRADUACAO_EM_CIENCIA_E_TECNOLOGIA/links/55d1ec6908ae3dc86a4f348c.pdf Acesso em: 27 Abr 2018.

BISPO, Fábio Santos; SOUZA, Marcelo Fonseca Gomes. O discurso psicanalítico entre outros: considerações sobre Radiofonia. Disponível em: http://www.revispsi.uerj.br/v13n2/artigos/html/v13n2a13.html Acesso em: 28 Abr 2018. 

LACAN, Jaques (1970). Radiofonia. In: ____. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

Elaine Cristine Paschoal de Queiroz – Psicólogo e Psicanalista

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