O analista dirige o paciente?

Lacan , 10/08/2017

O sujeito procura uma análise quando o saber sobre si mesmo vacila. O analista (não qualquer analista) se torna o detentor daquilo que supostamente falta ao suplicante, o saber. Assim foi desde a invenção da psicanálise, pessoas iam em busca de Freud quando algum saber lhes faltava: Freud explica!

Mas basta ler os escritos de Freud para constatar que, no fim das contas, qualquer tipo de explicação é situacional, para não dizer inútil. Mais ainda, leva ao pior, como por exemplo, a reeducação emocional, como já alertava Lacan em 1958, que algumas psicanálises propuseram a fazer.

O pior está justamente nesta perspectiva de direcionar o paciente, baseada muitas vezes no sentimento do analista. Tomando a si próprio (e seus conhecimentos) como referência, o analista coloca sua própria resistência, como resistência do paciente. Lacan é categórico, “(…) não há outra resistência a análise senão a do próprio analista” (p. 601).

Lacan é categórico, “(…) não há outra resistência a análise senão a do próprio analista” (p. 601).

O manejo não reside no direcionamento do paciente e sim na direção do tratamento, cujos meios para tal Lacan descreve:
1. Que a fala aqui tem todos os poderes, os poderes especiais do tratamento.
2.Que estamos muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso coerente, mas o deixamos livre para se experimentar nisso.
3.Que essa liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar.
4.Que a demanda é propriamente aquilo que se coloca entre parênteses na análise, estando excluída a hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma.
5.Que, não sendo colocado nenhum obstáculo a declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado.
6.Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode ater-se aqui a nada além da incompatibilidade do desejo com a fala.
(p. 645)

Referência Bibliográfica:

Lacan, J. – Escritos

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