O tonel das Danaides e a “inutilidade do sintoma” neurótico

Lacan , 10/09/2017

Na mitologia grega a historia do tonel das Danaides retrata um castigo em que as danaides eram obrigadas a encher com água um vaso sem fundo, realizando assim um ato inútil e um trabalho sem fim. Assim podemos pensar no sintoma neurótico, ou mais precisamente, o uso neurótico de um sintoma.

O sintoma, para a psicanálise, é aquilo de que o sujeito reclama, aquilo que o faz dizer “sinto mal” com isso, aquilo e aquilo outro. Freud mostra que o sintoma é produto da formação de um compromisso, tal qual os sonhos (e as demais manifestações do inconsciente). De um lado o desejo, do outro o contrainvestimento em relação a esse desejo. Para satisfazer as partes, ainda que de maneira insuficiente, um compromisso se forma, mas com uma condição: disfarce. Na Interpretação dos Sonhos, Freud explica detalhadamente o processo em que um desejo sexual infantil para se “realizar” através do sonho precisa se disfarçar em respeito a resistência, do contrario o sujeito acorda. Assim o sonho figura como a realização de um desejo disfarçado através de dois mecanismos básicos, a condensação e o deslocamento.

Com isso temos que o sintoma a uma só tempo realiza e nega um desejo. Lacan utiliza a banda de Moebius para, entre outras coisas, esclarecer que a divisão do inconsciente e da consciente não se da em duas superfícies diferentes, como seria num circulo oco, mas numa continuidade de superfície como possibilita a banda de Moebius. Assim o discurso do sujeito tem a Bejahung e a Verneinung numa mesma sentença. E, entre a Bejahung e a Vernenung,  está o sujeito, que por conta deste duplo lugar confunde temporalmente entre o “cedo demais” e o “tarde demais” para agir. Aí, bem aí, frente a esse impasse se constrói o sintoma, “diante da falta do pênis as crianças elaboram suas teorias” (Klautau, p. 80).

Neste ponto em que claudica, neste lugar da hiância, ai está o lugar que o sujeito tenta preencher com algo. Na falta do olhar de desejo do Outro materno a criança se responsabiliza pela falta que vê no outro e nessa hora:

“$ ^ a, em termos de pulsão D ^ a, pois observa que o neurótico identifica a falta do Outro com sua demanda, ou seja, o neurótico toma a demanda do Outro por seu desejo. Dai resulta que a demanda do Outro assume a função de objeto em sua fantasia, isto é, que sua fantasia reduz-se a pulsão.” (Klautau, p. 98)

o neurótico identifica a falta do Outro com sua demanda, ou seja, o neurótico toma a demanda do Outro por seu desejo

Ou seja, o neurótico identifica a falta do Outro e vê ai o pedido desse Outro como se fosse para ele (neurótico) tomando assim como sua responsabilidade responder a este “pedido”, forjando seu desejo como o suposto desejo do Outro. Ai está a questão neurótica: o que o Outro quer de mim? O sintoma está na resposta e resistência a esta resposta, criando aquela dinâmica descrita por Zizek como extremos esforços que o sujeito faz para que nada mude, para não sair do lugar. O sintoma é a ponta de lança da fantasia de resposta ao enigma do Outro.

Nesta pequena apresentação das vias de formação de sintoma é possível perceber que a inutilidade colocada no titulo deve ser posta entre “aspas” e devemos insistir no “uso inútil do sintoma” como o melhor enunciado. O sintoma tem grande valor no processo clínico e grande preço para o sujeito que dele se diz proprietário:

Mas Freud nos mostrou que sintomas não são desajustes (…) de fato, estes representa um obstáculo ao amor, ao trabalho e uma fonte de infelicidade, além daquelas que a existência, por si só impõe. NADA TOMA MAIS TEMPO E É MAIS ONEROSO AO NEURÓTICO DO QUE SUA DEDICAÇÃO AOS SINTOMAS. (DUNKER, C. P. 13)

NADA TOMA MAIS TEMPO E É MAIS ONEROSO AO NEURÓTICO DO QUE SUA DEDICAÇÃO AOS SINTOMAS

Mais uma vez nos deparamos com um duplo lugar, inútil ou útil? Livrar-se do sintoma ou não? “Uma ligação intensa com aquilo que não lhe serve para nada e que não obstante toca-lhe no mais fundo de sua experiência subjetiva” (idem). A solução está em manter o paradoxo, mas acrescentar um giro, tal como diz Eliot:”O que chamamos de começo costuma ser o fim. E fazer um fim é fazer um começo. O fim é o lugar de onde começamos”. Travessia dessa fantasia, mas nos apegando no termo “giro” não se trata de, como ao pé da letra, atravessar para outra margem da fantasia, e sim algo de outra ordem:

A expressão “atravessar a fantasia”, precisamente, não designa o que sugere quando tomada pelo viés do senso comum, ou seja, “livrar-se das fantasias, das inclinações e perturbações ilusórias que distorcem nossa visão da realidade e, assim, aprender finalmente a aceitá-la como se apresenta…”. Na travessia da fantasia nós não aprendemos a suspender nossas produções fantasmáticas; ao contrario, identificamo-nos ainda mais radicalmente com o trabalho de nossa imaginação”, em toda a sua inconsistência, ou seja, com aquilo que é anterior a sua transformação no suporte fantasmático que garante nosso acesso a realidade. (Zizek, p. 73)

O valor da análise pode justamente estar neste lugar, mudar o uso do sintoma, de um “sinto-mal” a um “dom”, destino criativo, e roubando o termo de Winnicott (que gostava de dizer que roubava ideias), um sintoma de natureza transicional.

 

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Este texto é fruto do trabalho realizado no ultimo encontro do grupo Deformação Clínica Lacaniana que acontece todo segundo sábado de cada mês na Vila Mariana em São Paulo

Referência Bibliográfica

Dunker, C. – O cálculo neurótico do gozo

Eliot, T. S.  – Ensaios escolhidos

Freud, S. – A interpretação dos sonhos

– Compêndio da Psicanálise

Klautau, P. – Encontros e desencontros entre Winnicott e Lacan

Lacan, J. – Escritos – Observação sobre o relatório de Daniel Lagache

– Seminário 4

– Seminário 11

Winnicott, D. – O brincar e a realidade

Zizek, S. – Como ler Lacan

– O sujeito incômodo