Clínica Winnicottiana – Insanidade é não encontrar alguém que nos tolere

Winnicott , 16/09/2017

A frase do título é a citação feita por Winnicott que considero minha favorita. A frase aparece no texto “Variedades de psicoterapias” (que trabalharemos hoje no nosso grupo de estudo) e é uma citação de um amigo de Winnicott, o também psicanalista John Rickman.
Essa frase consegue condensar uma série de coisas, nela posso encontrar o modelo clínico que sustento dia a dia no consultório,  grosso modo poderíamos dizer que qualquer experiência que não encontre moldura que a delimite é experimentada como insanidade e por conta disso insustentável pelo sujeito, levando-o ao surto declarado ou até mesmo para um aparente extremo outro lado, em um silêncio isolador.
Winnicott, em um de seus trabalhos, traz o caso de um paciente, que, apesar de ser homem, parece se queixar de inveja do pênis, e exclama escutar ali não um homem, mas uma mulher:

“A sessão a que se refere passa-se em torno da “inveja do pênis”, como se fosse vivida por uma menina e não por um homem adulto, casado e com uma vida profissional ativa. Isso surpreende Winnicott, que se vê interpretando “Estou escutando uma garota. Sei perfeitamente bem que você é homem, mas estou escutando uma garota e falando com uma. Estou lhe dizendo: você está falando sobre inveja do pênis”. Enfatiza que isso não tem nada a ver com homossexualidade.
O paciente responde aliviado: “Se eu fosse falar a alguém a respeito dessa garota seria chamado de louco”. Ao que Winnicott responde: “Não é que você tenha contado isto a alguém; sou eu que vejo uma garota e escuto-a falar, quando na verdade há um homem em meu divã. O louco sou eu”. (Winnicott, Explorações Psicanalíticas, p. 135)

Este paciente carregava esta experiência de ser uma mulher com base na questão da inveja do penis e que, dentro de sua lógica não havia menor sentido para isso e assim silenciava este aspecto. Winnicott, de alguma forma, escuta o que há ali de não-integrado e declara para o paciente, aquele elemento impensável, indizível, intolerável, “escuto uma garota aqui”. A experiência que antes estava a deriva de articulações integrativas finalmente acha um outro que podia escutá-la, e oferecer contorno, e assim pôde, finalmente, ser pensado pelo sujeito fora do contexto de insanidade.

“O alívio provocado era devido a haverem chegado, na transferência, a uma vivência que acompanhava o paciente por toda a sua vida. Era por tocar numa cisão que muito cedo se estabelecera dentro dele, na busca de ajustar-se a uma expectativa de sua mãe. Esta havia desejado que ele, seu segundo filho, fosse menina e o havia visto e tratado como tal. Essa situação tão precoce o levou a incorporar a “loucura da mãe”, mantendo essa cisão quase total entre ser menino e menina, sentindo-se “louco”. Quando Winnicott assume e traduz a loucura da mãe, provoca o alívio mencionado e novos rumos na condução de sua análise.” (Hirchzon, Fonseca & Amiralian).

Retomando o nome do titulo, é justamente a tolerância que Winnicott oferece ao impensável ou indizível de seu paciente. Isso é a clínica! Possibilitar que o impensável seja pensado ou que o indizível seja dito, o analista ocupa este lugar, de outro ou de ambiente (dependendo da necessidade de cada paciente) para que o paciente posso encontrar onde habitar sua experiência, quando nele ainda não couber. Nesse ponto tocamos outro aspecto fundamental da clínica de Winnicott, oferecer aquilo que o paciente necessita, ou mais precisamente, aquilo que é possível tolerar. Isso quer dizer que nem todas pessoas se encontram no mesmo ponto de amadurecimento pessoal, em “Variedades de Psicoterapias” Winnicott descreverá três categorias de pacientes:

“Para ser bem claro, deverei dar a vocês uma visão panorâmica do distúrbio psicológico, das categorias de imaturidade pessoal, mesmo que isso envolva uma simplificação grosseira de uma questão altamente complexa. Eu estabeleci três categorias. A primeira delas traz-nos a mente o termo psiconeurose. Ai se enquadram todos os distúrbios de indivíduos que foram suficientemente bem cuidados nos estágios iniciais da vida para terem condições, do ponto de vista do desenvolvimento, para enfrentar e, em certa medida, não conseguir conter as dificuldades que são inerentes a vida plena, uma vida em que o indivíduo domina e não é dominado pelos instintos.
A segunda categoria traz-nos a mente a palavra psicose. Aqui, algo aconteceu de errado quanto aos detalhes dos primeiros cuidados dispensados ao bebê, sendo o resultado uma perturbação na estrutura Basic da personalidade do indivíduo (…) os pacientes nesta categoria nunca foram suficientemente saudáveis para tornarem-se psiconeuroticos.
Reservo a terceira categoria para os pacientes intermediários, aqueles indivíduos que começaram suficientemente bem, mas cujo ambiente não os ajudou em algum ponto (…) são crianças, adolescentes ou adultos que poderiam legitimamente afirmar: tudo estava bem até…, e minha vida pessoal só poderá desenvolver-se se o meio reconhecer sua dívida comigo (…).(Winnicott, Variedades de Psicoterapias p. 266)

Este é apenas um dos trabalhos que Winnicott se propõe a fazer estas divisões em categorias, não com a finalidade de cristalizar, mas com o intuito de auxiliar na escuta do analista em ouvir a insanidade de cada um, a loucura neurótica, psicótica ou deprivada, que aguarda um outro que a tolere.

Finalizo o texto do encontro de hoje invertendo a frase de Jung: frente a uma alma humana seja uma alma humana, mas domine as teorias e as técnicas para ter condições de oferecer de maneira precisa o que de fato o outro (paciente) precisa, e não cair num assistencialismo preguiçoso sem esforço clínico algum por parte do analista.

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http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302003000200006

 

Winnicott – Privação e delinquência

– Explorações Psicanalíticas